14/09/2026

"Philomena", de Stephen Frears, é o primeiro favorito ao Leão


Veneza –
Numa edição do festival que a muitos jornalistas e habituês tem parecido morna, caiu como um bálsamo o concorrente ao Leão de Ouro Philomena, de Stephen Frears – que foi merecidamente ovacionado nas sessões de imprensa e na coletiva deste sábado (31). Pintou o primeiro favorito.

Baseado numa impressionante história real, ocorrida na Irlanda dos anos 1950, o filme de Frears acompanha o calvário de Philomena Lee (Judi Dench, candidatíssima a um prêmio de atuação), uma enfermeira aposentada que procura pelo filho, que lhe foi arrancado, ainda pequeno, quando ela foi internada num convento - destino das moças que, como ela, engravidavam fora do casamento e eram abandonadas pelas famílias. Seus filhos eram encaminhados para adoção.

Philomena é ajudada pelo jornalista Martin Sixmith (o comediante Steve Coogan, coprodutor do filme), que a princípio a contragosto entra na parada, envolvendo-se depois numa jornada que inclui uma viagem aos EUA em busca das pistas do pequeno Anthony – que foi adotado, mudou de nome e virou Michael Hess.

Narrativa clássica, dramática e com muitos momentos de humor, Philomena não perde o foco nem o ritmo. Foi um excelente modo de começar o dia.

James Franco, de novo
Também foi aplaudido, mas bem mais moderadamente, a nova investida do ator e diretor James Franco em Child of God, uma adaptação do livro de Cormac McCarthy, que retrata um personagem completamente disfuncional e isolado no Tennessee, Lester Ballard (Scott Haze, que virou o ator-fetiche de Franco em sua trilogia literária, que compreende o filme anterior, As I Lay Dying, baseado em William Faulkner, e uma recém-completada cinebiografia do escritor Charles Bukowski).

Por conta disso, Franco transformou-se numa figurinha obrigatória em festivais. Este ano foi a Berlim, Cannes e agora está em Veneza. O filme sobre Bukowski certamente aparecerá em algum outro festival.

Se não é constrangedor e contém uma indiscutivelmente dedicada interpretação do ator Scott Haze – com grande esforço inclusive físico -, Child of God está longe de ser uma obra-prima em seu retrato de um homem abandonado, isolado, rejeitado e perturbado mentalmente que se torna necrófilo e assassino. Por isso, bem pode acontecer de Haze vir a ganhar um prêmio de atuação.

Terrorismo ecológico
Toca um tema interessante outro concorrente norte-americano ao Leão de Ouro, Night Moves, de Kelly Reichardt, uma coprodução com o Brasil (só em termos financeiros) que enfoca um trio de ecologistas (Jesse Eisenberg, Dakota Fanning e Peter Sarsgaard) envolvido no atentado a uma usina hidrelétrica.

Se tivesse mais empenho e energia, Night Moves poderia até ser uma espécie de retrato de uma geração em busca de uma vida alternativa, informada pelos celulares e a internet. Não chega lá, apesar da boa interpretação sobretudo de Jesse Eisenberg.