16/09/2026

Violência é tema de concorrentes "Joe" e "The Police Officer's Wife"

Veneza – Exibidos quatro candidatos ao Leão de Ouro, começa a ficar claro que Veneza 70 reservou algumas vagas na seleção para examinar a violência. E ela brotou forte na tela nestes dois primeiros dias, com o concorrente alemão The Police Officer’s Wife, de Philip Gröning, que enfocou com peculiar crueza e um formato bem estilizado – e longo – a história de um policial espancador da própria mulher; e também do drama Joe, de David Gordon Green, que trouxe um Nicolas Cage num papel a quem seus excessos e até sua persona conseguem servir, sem dúvida o personagem mais interessante dos últimos (muitos) anos de uma carreira que já teve um Oscar (por Despedida em Las Vegas, em 1996) mas depois vem derrapando em inúmeros filmes-bagaceira, que não têm somado nada mais do que dinheiro na sua conta bancária e têm corroído seu conceito como ator, sem que ele pareça ter se importado até aqui.

Dissecando a família
Mais conhecido internacionalmente por seu documentário sobre um monastério francês, O Grande Silêncio (2005), Prêmio Especial em Sundance em 2006, Gröning exerce neste seu drama ficcional, The Police Officer’s Wife, um muitas vezes exasperante exercício formal, dividindo as quase três horas de duração do filme em 59 microcapítulos, anunciando seu início e final por letreiros.

Esses capítulos constroem o cotidiano de uma pequena família de classe média, formada pelo policial Uwe (David Schimmerschied), sua mulher Christine (Alexandra Finder) e uma filha pequena, Clara (interpretada pelas gêmeas Pia e Clara Kleenman).

Há momentos de uma indescritível beleza, retratando o idílio da família com a natureza, em busca de prendas de Páscoa num bosque; a menina e a mãe plantando sementes numa pequena horta; e cada um dos personagens cantando para a câmera. Toda essa doçura é sobreposta por outras cenas mostrando o meticuloso policial guardando metodicamente suas coisas num quarto em sua casa; e também executando seu trabalho em cenas de acidentes. Quase não há fronteira entre a ternura e o horror, que surge paulatinamente pela descoberta do espectador das grandes manchas no corpo de Christine, que denunciam os severos espancamentos que sofre – e a sua inquietante submissão a esse relacionamento de interdependência doentia.

Se há uma coisa que o filme de Gröning não procura é lançar pistas psicológicas. Se não absolve o espancador, nem sua vítima consentida, também não abre portas a soluções – vizinhos e colegas de trabalho parecem nada perceber do que se passa dentro da casa da família. Uma pista para algo de selvagem que ronda sempre esta pequena rua, aparentemente tão limpa e civilizada, é a constante visita noturna de uma raposa. Um momento David Lynch, num filme cujas cenas mais belas remetem ao mexicano Carlos Reygadas, tudo isso embalado num rigor formal digno do austríaco Michael Haneke.

Pais e filhos
Duas relações paternais, uma biológica e péssima, outra figurada e mais terna, se sobrepõem em Joe, em que Nicolas Cage interpreta o personagem-título, num drama baseado em livro de Larry Brown.

No centro destas duas relações, está o adolescente Gary (Tye Sheridan, um dos meninos de A Árvore da Vida), de 15 anos. O pai verdadeiro é um alcoólatra violento e sem remédio (Gary Poulter, um ator amador, morador de rua antes e que morreu antes do lançamento do filme). Tentando cuidar da mãe e da irmã, Gary encontra no patrão Joe (Cage), um ex-presidiário com seus próprios fantasmas do passado a persegui-lo, uma figura positiva e protetora – mesmo para seus empregados, imigrantes ilegais que executam um trabalho ilegal e perigoso, envenenando árvores que depois irão derrubar.

Deixando para trás boa parte de seus exageros de atuação dos últimos anos, Cage tem um papel com bastante substância para extrair e ele faz o seu melhor em muito tempo. Não seria mesmo surpresa vê-lo, mais uma vez, na fila do Oscar, já que a temporada de lançamentos está começando. Veneza pode, no entanto, ser uma boa plataforma para o ator, se ele quiser projetar sua maturidade, na vida e na tela, num caminho mais digno.

Tye Sheridan – visto também em Amor Bandido, concorrente em Cannes 2012 e em breve lançamento no Brasil – por sua vez, está se firmando como um dos novos galãs da novíssima geração. É um garoto bem bonito e sabe atuar. Pode ir longe.

Entre os cânions de L.A.
Fora da competição, o filme mais badalado foi mesmo The Canyons, de Paul Schrader, coproduzido e protagonizado pela garota-problema Lindsay Lohan – que não veio a Veneza, o que não é surpresa para alguém com seu tumultuado histórico judicial nos EUA.

O veterano diretor Schrader (de O Gigolô Americano), no entanto, abriu o bico contra sua atriz e coprodutora na coletiva do filme: “Hoje sou um homem livre. Por 18 meses, fui refém, por minha própria escolha, de uma atriz muito talentosa e imprevisível. Ela me garantiu que estaria aqui hoje. E não está”. Por isso, o diretor disse que “não lidaria” com nenhuma pergunta pessoal sobre ela. “Posso falar de seu papel no filme, não de sua personalidade”, avisou.

Comentando a atuação de Lindsay, Schrader descreveu-a como “uma atriz muito destemida”. Mas não demorou a criticá-la: “Seu problema é que ela gasta tempo demais fingindo coisas e isto é cansativo tanto para ela, quanto para as pessoas à sua volta”. Por isso, segundo ele, “o que se vê na tela é muito próximo do que eu queria. Ela ficou perto da marca, mas foi muito exaustivo, porque tivemos que nos esforçar demais para separar o público do privado”.

The Canyons, em todo caso, é tudo menos um programa-família. Com roteiro de Bret Easton Ellis (autor de Psicopata Americano), The Canyons é um pseudo-suspense ambientado em Los Angeles, partindo das obsessões sexuais e de poder de um jovem e poderoso produtor de cinema, Christian (o ator pornô James Deen), e sua manipulação da namorada, Tara (Lindsay Lohan).

Ciúme, vigilância, orgias (há diversos nus frontais, nenhum de Lindsay, que se limita a mostrar os seios) e alguns crimes pontuam a narrativa, que aspira a ser um comentário dos bastidores da meca do cinema, suas neuroses e modus operandi. Qualquer semelhança – ou inspiração ? – em Cidade dos Sonhos, de David Lynch, e até um quê de Cosmópolis, de David Cronenberg, certamente não serão mera coincidência.