Cannes na reta final divide as apostas
- Por Neusa Barbosa, de Cannes
- 22/05/2015
- Tempo de leitura 6 minutos

Na reta finalíssima de Cannes – falta apenas a exibição do último concorrente, Macbeth, do australiano Justin Kurzel, neste sábado (23) de manhã -, nada mudou a percepção de que 2015 não foi um grande ano na seleção principal e que o cinema francês, descaradamente privilegiado, com cinco filmes entre os vinte candidatos à Palma de Ouro, não mereceu a proteção patrioteira.
Nem a rara reunião dos consagrados Isabelle Huppert e Gérard Depardieu salvaram o último concorrente gaulês,
Valley of Love, de Guillaume Nicloux, de ser um furo n’água. Nem com todo o esforço de dois intérpretes extraordinários se consegue acreditar no calvário de um ex-casal, que teve um filho que se suicidou, nos EUA. Este filho deixou-lhes, por carta, um itinerário a ser seguido, no Vale da Morte norte-americano, em que seus pais o reencontrariam.
Valley of Love, de Guillaume Nicloux, de ser um furo n’água. Nem com todo o esforço de dois intérpretes extraordinários se consegue acreditar no calvário de um ex-casal, que teve um filho que se suicidou, nos EUA. Este filho deixou-lhes, por carta, um itinerário a ser seguido, no Vale da Morte norte-americano, em que seus pais o reencontrariam.

Nem realista, nem fantástico, nem new age, nem rock’n roll, o filme nada mais é que uma sucessão de paisagens incríveis, propícias a um faroeste da alma, caso o diretor/roteirista tivesse tido a competência de criá-lo. O artificialismo é tremendo e as emoções não fluem, tal como acontece a outros filmes franceses da temporada.
Os filmes franceses que falam de amor –
Mon roi,
de Maiwenn, e
Marguerite & Julien, de Valérie Donzelli – aliás, desagradaram bastante, pelos excessos, a mão pesada.
Mon roi,
de Maiwenn, e
Marguerite & Julien, de Valérie Donzelli – aliás, desagradaram bastante, pelos excessos, a mão pesada.

Salvou-se, é verdade, o engajado
Deephan, do várias vezes premiado Jacques Audiard (O Profeta), a quem só falta a Palma de Ouro. Afinal, um filme que fala de imigração e violência urbana com tanta propriedade só pode ser bem-vindo – em que pese a estranheza que causa o seu final, na Inglaterra.
Deephan, do várias vezes premiado Jacques Audiard (O Profeta), a quem só falta a Palma de Ouro. Afinal, um filme que fala de imigração e violência urbana com tanta propriedade só pode ser bem-vindo – em que pese a estranheza que causa o seu final, na Inglaterra.
Outro filme politizado,
La loi du marché, de Stéphane Brizé, tem o coração no lugar certo ao falar de desemprego e dignidade – e conta com Vincent Lindon, como sempre, um ator muito correto. Mas faltou punch ao filme.
La loi du marché, de Stéphane Brizé, tem o coração no lugar certo ao falar de desemprego e dignidade – e conta com Vincent Lindon, como sempre, um ator muito correto. Mas faltou punch ao filme.

Mexicano deprê
Candidato à Palma que entrou aos 45 minutos do segundo tempo – assim como Valley of Love -, o único latino-americano da competição, o mexicano Chronic, de Michel Franco (Depois de Lucía), mergulhou no universo solitário de um enfermeiro que cuida de doentes crônicos ou terminais, David (Tim Roth).
É um filme de narrativa mais sólida do que o seu anterior e Roth está empenhado até o último fio de cabelo no papel – ele até foi seu produtor executivo. Mas parece difícil pensar em premiação para o filme ou mesmo para Roth, num ano em que há tantos papeis masculinos fortes: acima de todos, o húngaro Geza Rohrig, pelo extraordinário Son of Saul, do estreante Lazlo Nemes, que seria a minha Palma de Ouro. O filme inova num tema já tão exaustivamente revisitado, o Holocausto, e renova a energia com que trata dele.

Não seria injusto, tampouco, premiar o inglês Michael Caine, que está muito bem em Youth, o filme internacional do italiano Paolo Sorrentino, que é muito bem-produzido visualmente, fala de velhice e vida, mas está abaixo de A Grande Beleza. Em outra chave, Benicio del Toro está perfeito como o implacável agente da CIA de Sicario, do canadense Denis Villeneuve. Sempre é bom lembrar o irlandês Gabriel Byrne, muito bom como o pai viúvo no drama familiar Louder than Bombs, do norueguês Joachim Trier – e Byrne é um velho conhecido dos irmãos Joel e Ethan Coen, presidentes do júri, que o dirigiram em Ajuste Final (90).
Americanos e orientais
Se o grande desastre da seleção foi um concorrente norte-americano, The Sea of Trees, de Gus Van Sant (tornando escassas as chances de premiação de seus atores, Matthew McConaughey e Ken Watanabe), andou muito melhor Carol, o ótimo drama de época de Todd Haynes que parece aposta certa para uma premiação feminina, no caso de Cate Blanchett.
A única concorrente forte contra Cate Blanchett é a italiana Margherita Buy, que está realmente excelente no bom drama de Nanni Moretti, Mia Madre – que também é um concorrente a premiações de primeira linha, unindo a história de uma cineasta em crise pessoal e profissional (Margherita) a um cenário de criação artística e Itália em crise.

Andou melhor o cinema oriental, mas só por causa de Jia Zhang-ke. Em seu Mountains may depart, ele faz um resumo de sua obra, injeta sua biografia, revisita o visceral Plataforma (2000), que o lançou internacionalmente, e faz uma reflexão séria sobre a China e a contemporaneidade, num filme que usa a música de uma maneira muito peculiar e eficiente. Zhang-ke se renova e amadurece, merece um prêmio, até o maior de todos.
Se não andou tão bem, nem por isso o intimista Umimachi Diary, do japonês Hirokazu Kore-eda, deixa de ser um aceno a um clima de Ozu, ao fazer a crônica da vida de quatro irmãs, com sua habitual delicadeza. Já o drama de época The Assassin, do veterano de Taiwan Hou Hsiao-Hsien, esgota-se numa beleza estética sublime, mas não mais do que isso.
Estranhos no ninho

Correndo por fora, a sombria distopia grega The Lobster, de Yorgos Lanthimos, deve agradar um dos jurados, o mexicano Guillermo del Toro – mas sua premiação seria surpresa. Claro que nada é impossível, afinal, júris sempre cometem alguma ousadia, quando não algum absurdo.
De todo modo, surpresa mesmo seria alguém premiar Il Racconto dei Racconti, do italiano Matteo Garrone, que revisita o universo das fábulas, mas é um tanto estranho e desequilibrado, apesar da boa produção e do elenco estrelado. Foi, aliás, um estranho ano em que se revisitou esse mundo dos contos de fada sob uma chave um tanto adulta e fora de lugar – caso do francês Marguerite & Julian, que fala de incesto. Melhor ficar com uma fábula propriamente dita, a animação The Little Prince, de Mark Osborne (Kun fu panda), que revisita O pequeno príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, com bastante liberdade. A boa notícia é que deu certo, o filme é um encanto.
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