23/09/2026

Jia Zhang-ke apaixona Cannes; Sorrentino divide opiniões


A cinco dias do encerramento do festival, a competição subiu a temperatura, com a passagem do concorrente chinês Mountains may depart (Shan he gu ren), do já habituê de Cannes, Jia Zhang-ke.

O sensível diretor chinês criou, neste filme extremamente ambicioso e pessoal ao mesmo tempo, um diálogo forte com o primeiro filme que o projetou internacionalmente,
Plataforma
(2000). Como naquele filme, Khang-ke entrelaça destinos individuais e as extensas mudanças sociais e econômicas de seu país, numa história que se projeta em três momentos: 1999, 2014 e 2025 (neste segmento, na Austrália, falado em inglês).
Sua mulher e atriz-fetiche, Zhao Tao, interpreta Tao, a mulher dividida na juventude entre dois amores: Jinsheng (Zhang Yi) e Lianzi (Liang Jingdong). O primeiro, aguerrido e empreendedor, lançando-se como grande empresário. O segundo, modesto empregado numa mina de carvão.
Tao, afinal, é uma espécie de metáfora de um grande país dividido entre seus valores e cultura tradicional e um capitalismo cada vez mais selvagem, mudando a face da nação de tal forma que o filho do casal, formado por Tao e Jinsheng, se chamará Dollar (Dong Zijang) e se esquece de como falar chinês, já que seu pai decidiu educá-lo fora do país e morar na Austrália.
Prestes a completar 45 anos, Zhang-ke é um mestre maduro do cinema, que tem o desgosto de sofrer a censura de sua obra em sua própria terra. Mesmo o delicado documentário feito por Walter Salles sobre ele no ano passado, Jia Zhang-ke, Um Homem de Fenyang, enfrentou restrições para sua circulação. É uma vergonha. E não só porque Mountains may depart é o primeiro filme por aqui cercado por uma forte percepção de merecimento da Palma de Ouro, para um diretor que já concorreu quatro vezes antes, só premiado uma vez, com troféu de melhor roteiro, por Um toque de pecado (2013). Jia faz uma síntese não só de seu país, mas do mundo contemporâneo, conjugando o idioma do cinema capaz de falar com qualquer povo.
Tomara que, parafraseando o título de seu filme, as montanhas possam realmente mover-se e dar-lhe, afinal, esta merecida Palma.

Beleza, de novo
O terceiro concorrente italiano à Palma,
, repetiu em parte o estilo de A Grande Beleza (que concorreu aqui e foi absurdamente esnobado) em Youth, uma produção internacional com elenco idem e falada em inglês.
Sorrentino não tem medo da estilização nem do artifício – e nisso ele segue as pegadas do mestre Federico Fellini. Sorrentino não é Fellini, mas tem suas qualidades. Cria suas histórias com apego pela escritura, a frases de efeito e a um apuro visual extraordinário.

Uma música intoxicante – mais uma vez, canto lírico, como se viu em A Grande Beleza -, se derrama enquanto belas imagens caem como em cascata, revelando o cenário de um hotel-spa suíço, no meio das montanhas, em que alguns hóspedes assumem o papel de cronistas do que Sorrentino quer falar: o sentido da vida, o peso da maturidade, a razão de ser da arte, a necessidade onipresente da beleza.
Esses dois velhos amigos que falam sobre a vida, Fred (Michael Caine) e Mick (Harvey Keitel), e são uma espécie de protagonistas da história, são muito teatrais, no bom sentido, como personagens de Samuel Beckett filtrados numa luz mais branda, embora a melancolia e a amargura se infiltrem naturalmente.

Os outros personagens à sua volta vêm tocar outras notas e compor a sinfonia em torno destes dois condutores, já que um é maestro, outro cineasta, duas profissões em que se brinca de Deus. Esses outros são um ator que vem compor um novo papel (Paul Dano), a filha insegura de Fred (Rachel Weisz) e uma velha musa de Mick, Brenda Morel (Jane Fonda, num papel de exposição corajosa, que demonstra não só sua confiança em Sorrentino, como nos lembra da grande atriz que é, pena que não a vejamos mais tanto assim).
Cannes pode ter a tentação de premiar Sorrentino por este filme, compensando a injustiça passada pela omissão quanto a A Grande Beleza (que terminou vencendo o Oscar de
filme estrangeiro). Tomara que não o faça com este espírito em relação a este filme, que parece insinuar uma trilogia do diretor.

Furacões filipinos
Na seção Un Certain Regard, o diretor filipino Brillante Mendoza mergulhou fundo em um melodrama com forte cunho neorrealista, Taklub, sempre com uma câmera muito documental, acompanhando os efeitos devastadores do tufão Hayan sobre a cidade de Tacloban, Filipinas.
Um ano depois da tragédia, os sobreviventes ainda se abrigam nos restos de suas próprias casas destruídas ou então em tendas precárias – uma delas pega fogo, matando os familiares do pescador Renato (Lou Veloso) que haviam escapado ao tufão.
Não há uma única família que não conte seus mortos. Dona de uma pequena lanchonete, Bebeth (Nora Aunor) perdeu três filhos e insiste para que o marido, como ela, submeta-se a um teste de DNA para procurar localizar seus restos, entre os milhares que foram sepultados às pressas.

Focalizando também o apego a uma religiosidade cristã um tanto fanática, a luta contra a burocracia inepta e a pobreza onipresente, Mendoza faz de sua câmera um instrumento de engajamento, embora o filme não seja tão bem realizado quanto trabalhos anteriores, caso de Lola ou Kinatay.
Genocídio armênio
Fora da competição, o diretor francês Robert Guédiguian, que é de origem armênia, lembrou o centenário do genocídio armênio pelos turcos, em 1915, em Une histoire de fou. Baseando-se nas memórias de José Antonio Gurriaran, La Bomba, o filme, na verdade, vai mais longe do que simplesmente lembrar o massacre, discutindo dilemas éticos em torno do uso da violência.

O foco se fecha numa família de origem armênia, vivendo em Marselha nos anos 1970. Filho dos comerciantes Hovannes (Simon Abkarian) e Anouch (Ariane Ascaride), o jovem Aram (Syrus Shahidi) adere às armas, engajando-se na brigada armênia que tomou em suas mãos a vingança dos 1,5 milhão de mortos em 1915, matando não só autoridades turcas, como promovendo atentados em grande escala.
É visível que Guédiguian quer falar não só dos armênios, como da gênese da violência que se espalha por nosso mundo atual, dividido entre etnias, religiões e guerras sem fim. Mesmo que a realização do filme não seja ideal – há momentos de quase novelão -, não é um filme para desprezar, oferecendo material para uma reflexão necessária.