Dramas masculinos e além da realidade animam segunda semana de Cannes
- Por Neusa Barbosa, de Cannes
- 18/05/2015
- Tempo de leitura 5 minutos

Cannes 2015 está se definindo também como uma plataforma de lançamento de dramas familiares que procuram inovar, de algum modo, elementos de sua fórmula – o que aconteceu, há dias, com o concorrente italiano Mia Madre, de Nanni Moretti, e também com o candidato norueguês Louder than Bombs, de Joachim Trier (Oslo, 31 de Agosto).
Centrado numa família de três homens, deixados órfãos pela morte da mãe (Isabelle Huppert, saindo de um registro habitual), o drama nórdico desenvolve os dilemas do trio masculino (Isabelle aparece em várias cenas em flashback) compassadamente, com gravidade e consistência. E, o que é melhor, evita o melodrama sem tornar-se frio.
Gene (um Gabriel Byrne eficiente como há muito não se vê) é o pai viúvo, um professor que deixou a carreira de ator e cuida do filho caçula, o adolescente Conrad (Devin Druid) – um poço de raiva, com quem o pai luta para comunicar-se, sem sucesso. O mais velho, Jonah (Jesse Eisenberg), que se casou há pouco e tem uma filha recém-nascida, também encara sua própria cota de dilemas na porta da maturidade.
O roteiro, do próprio Trier e de Eskil Vogt, aborda segredos, culpas, mágoas, todo um vasto ciclo de ditos e não-ditos que percorrem as relações de qualquer família. Esta, de anticonvencional, tem para começar a profissão da mãe, uma fotógrafa especializada em fronts de guerra.
Por conta desse detalhe, uma discussão dos papeis femininos se insinua nesse emaranhado de tensões masculinas. De todo modo, as mulheres estão presentes – Isabelle, como um fantasma mal-enterrado, além de outras que se relacionam com estes homens, caso da professora Hannah (Amy Ryan), que tem um caso com Gene, da mulher de Jonah, Amy (Megan Ketch),
sua ex-namorada, Erin (Rachel Brosnahan), e da adolescente Melanie (Ruby Jerins), interesse amoroso de Conrad.
sua ex-namorada, Erin (Rachel Brosnahan), e da adolescente Melanie (Ruby Jerins), interesse amoroso de Conrad.
Desemprego e dignidade
Outro concorrente francês – num ano com visível excesso deles -, o drama La Loi du Marché, de Stéphane Brizé (Mademoiselle Chambon), tem seu grande trunfo também numa correta interpretação masculina, do talentoso Vincent Lindon.Embora seu tema seja da maior relevância e tenha se tornado o pesadelo do mundo atual, na Europa inclusive, o filme se desenrola de maneira um tanto amorfa. O diretor parece aspirar ao despojamento dos irmãos Dardenne, sem êxito, já que, ao tornar-se didático, seu filme tem seu ritmo particularmente prejudicado.
Sonhos de Apichatpong
Na seção Un Certain Regard, a grande atração do dia foi Cemetery of Splendour, novo trabalho do diretor tailandês Apichatpong Weerasethakul – que venceu em 2010 a Palma de Ouro em Cannes por seu mágico Tio Bonmee que pode lembrar suas vidas passadas.
Voltando às suas raízes, filmando em Khan Koen, sua terra natal, o diretor tailandês mais uma vez constrói uma narrativa em que os limites entre realidade e fantasia são tênues, se é que existem.Uma pequena escola local foi transformada em hospital para abrigar alguns soldados que sucumbiram a uma misteriosa doença do sono – que pode ou não estar relacionada a uma escavação próxima, realizada pelas autoridades.

Jenjira (Jenjira Pongpas Widner) é uma voluntária que começa a cuidar de um soldado (Banlop Lomnoi), o único que não recebe visitas familiares. Tal com os outros soldados, ele passa acordado algumas horas do dia, caindo novamente ao sono inesperadamente. Entre sono e vigília, ele e Jenjira se comunicam, seja por meio de conversas, seja por meio de uma médium, Keng (Jarinpattra Rueangram).
Nenhuma descrição pode dar conta deste filme inusitado, em que, cada vez mais, os diferentes níveis de realidade se sobrepõem, permitindo a comunicação entre elas, inclusive entre épocas diferentes.
Espiritualismo, sugestão ou mágica, o novo filme de Apichatpong tem seu quinhão de metáfora, inclusive política. Afinal, este povo místico parece realmente viver um grande sono num país carregado de história e dominado por uma ditadura militar, como não se cansa de criticar o diretor tailandês, inclusive na apresentação do filme, hoje pela manhã.
Curtas brasileiros
Concorrente na seção Quinzena dos Realizadores, o curta Quintal, do mineiro André Novais Oliveira, reiterou seu estilo semidocumental, ao escalar novamente seus pais, Maria José e Norberto, como atores.
A narrativa parte de um registro realista, mostrando a vida tediosa do casal num subúrbio. Ela lava roupas, pinta as unhas, ele assiste a filmes pornôs. Um dia, um estranho fenômeno traz um vento forte e um círculo de luz, em que Norberto, curioso, entra.
Há toda uma transformação na vida dele, a partir de um projeto de mestrado que tem a ver com os filmes pornôs, numa bem-vinda ironia sobre o sonho de ascensão social.
Na Semana da Crítica, o curta paulista Command Action, de João Paulo Miranda Maria (SP), abordou, numa chave mais ácida as diferenças sociais e também sonhos. Um menino vai à feira para comprar comida para fazer o almoço, mas se distrai com uma série de incidentes e um desejo obsessivo – comprar um robô Command Action.
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