04/06/2026

Trabalho precário é tema dominante em candidatos ao Leão de Ouro


Veneza – O desmonte do mundo do trabalho foi o tema central de dois concorrentes ao Leão de Ouro hoje (29). Numa chave muito distinta, o francês À Pied d’Oeuvre, de Valérie Donzelli, e o sul-coreano No Other Choice, de Park Chan-wook (foto ao lado), tocaram nessa ferida aberta no mundo, levando ao desespero, desagregação e crime.

Entre os dois, soaram mais fortes as notas alcançadas pelo diretor sul-coreano. Autor da consagrada trilogia Mr. Vingança (2002), Old Boy (2003) e Lady Vingança (2005) e prêmio de direção em Cannes pelo elegante noir Decisão de Partir (2022), Chan-wook atinge o auge da forma ao estruturar o relato de destruição de uma família, adaptando o romance "The Ax", do autor norte-americano Donald Westlake.

Tudo começa quando um executivo da indústria de celulose, Mansoo (Lee Byung-hun), perde o emprego que conquistou há 25 anos, tornando-se um inseguro peão ao sabor da angústia de procurar um novo posto num contexto em que empregos são uma espécie em extinção – e os que restam são de baixa qualificação e salário.

À medida que os meses passam, e seu desespero cresce, abalado por entrevistas infrutíferas de emprego, a maneira que ele encontra para lidar com essa escassez, que o ameaça de perder tudo que conquistou – como a casa dos sonhos e o nível de vida alcançado por sua mulher, Miri (Son Ye-jin), e filhos – coloca-o diante de um progressivo processo de diluição, inclusive moral. No limite, Mansoo passa a enxergar como saída a eliminação física de seus adversários – ou seja, homens que, como ele, têm experiência na indústria de papel e disputam as mesmas poucas vagas do mercado.

Tanto quanto Parasita, de Bong Joon-ho, para citar outro sul-coreano afiado, Chan-wook sabe explorar as diversas camadas deste impasse social, bem como deste profundo mal-estar da classe média, que alcançou status e conforto, acreditando poder passá-los à próxima geração, apenas para se ver lançada no turbilhão de um mundo em que valores como organização comunitária, sindical e política estão sofrendo de sérios revezes.

Este novo mundo, individualista, impiedoso e regido por rituais em que a sinceridade equivale a um defeito, gera indivíduos como Mansoo – sem que o filme se lance a julgamentos nem o prive de complexidade. A riqueza de todos os personagens, incluindo as crianças da família, é aliás um dos pontos altos de uma obra que pode com certeza aspirar a uma premiação maiúscula – quem sabe até o Leão de Ouro.

Escritor bóia-fria

Numa chave mais sutil e intimista, a diretora francesa Valérie Donzelli desenvolve em À Pied d’Oeuvre (foto ao lado) a história de Paul (Bastien Bouillon), um ex-fotógrafo que largou a profissão para tornar-se escritor. Em seu terceiro livro, depois da separação da mulher e dos filhos, ele cai num certo bloqueio criativo e o resultado da primeira versão não agrada à editora (Virginie Ledoyen).

Pressionado pela necessidade de encontrar saídas e pela dificuldade financeira, Paul transforma-se num trabalhador precário, vendendo seu tempo numa plataforma que faz leilão para serviços diversos – da jardinagem a obras como pedreiro, ajudante de mudanças ou motorista de uber.

Esse mergulho num universo de trabalho aparentemente autônomo, mas que não reserva nenhuma garantia, leva a que Paul descubra um tipo de pobreza que comumente atinge refugiados, imigrantes ou pessoas sem estudo. Mas, no mundo atual, de empregos escassos, esse tipo de situação pode capturar também alguém como Paul, ainda mais porque ele insiste em tentar manter-se como escritor, recusando-se a voltar à fotografia.

Bastien Bouillon carrega muito do filme nas costas, tornando-se o enviado a estas situações que retratam as brechas de uma sociedade em que esses trabalhadores invisíveis, contratados por leilão em plataformas online, transformam-se em agentes desorganizados de um mundo em que o trabalho tem cada vez menos valor, desumanizando os dois lados, já que o nível das relações humanas, nesse contexto, reduz-se assustadoramente.

Mesmo em estilos e tons tão diferentes, os dois filmes dialogaram, e muito, revelando uma das vertentes da seleção principal do festival.