04/06/2026

Três candidatos ao Leão rugem no Lido

Veneza - Depois de La Grazia, o novo e maduro filme do prata da casa Paolo Sorrentino, três outros candidatos ao Leão de Ouro agitaram Veneza. Cada um com estilo bastante diferente.

Bugonia, o novo filme de Yorgos Lanthimos (foto ao lado), reitera não só o estilo bizarro-sombrio do diretor grego, repetindo a parceria com os atores Emma Stone e Jesse Plemons. Emma interpreta a super-executiva de uma empresa química, Michelle, que é sequestrada por uma dupla de malucos. Teddy (Plemons) e Don (Aidan Dilbis). Ambos acreditam que Michelle é uma extraterrestre, proveniente de Andrômeda, e pretendem forçá-la a levá-la com eles - e resolver também o grave problema de saúde da mãe de Teddy (Alicia Silverstone), decorrente de uma contaminação por produtos químicos, responsabilidade da empresa.

Toda essa trama de contaminação ambiental, que prejudica a sobrevivência das abelhas - Teddy também é apicultor - e a impiedade do ambiente empresarial são o lado realista de uma história que mergulha fundo na psicopatia, especialmente de Teddy - que Jesse Plemons vive com uma convicção assustadora.

A captura de Michelle pelos dois na casa de Teddy permite ao filme enveredar por um clima de suspense macabro, que lembra eventualmente O Colecionador (1965), de William Wyler, embora a personagem feminina aqui seja muito mais astuta e forte do que a vivida por Samantha Eggar. Lanthimos é também um diretor muito mais explícito em certas situações de violência, embora não lhe escape nunca um toque de humor - a sequência final, particularmente.

De todo modo, Bugonia é um filme bem mais consistente do que o último do diretor, Tipos de Gentileza (2024), até por apostar numa trama única e não em três histórias mal-relacionadas, quanto naquele filme do ano passado. A psicose dos personagens de Teddy e Don, assim como o risco de desastre ambiental no planeta, faz todo o sentido diante da realidade que vivemos. Se a mensagem é "Chamem os alienígenas!", não se reclame depois da solução que eles resolverem dar.

Clooney por Clooney

Habituê de gala do Festival de Veneza há anos, George Clooney interpreta um personagem calcado em sua própria persona em Jay Kelly, de Noah Baumbach (foto ao lado). Kelly é um famoso e consagrado ator que enfrenta uma crise pessoal na maturidade, aparentemente brilhante, quando reencontra um antigo colega do curso de teatro (Billy Crudup) - um reencontro que parecia ser afetuoso mas desencadeia uma explosão de mágoas do antigo amigo que acaba em socos em público.

Perseguido por este princípio de escândalo e por não conseguir manter contato com as duas filhas, de quem a própria carreira intensa manteve afastado, Kelly decide viajar à Itália, aceitando a homenagem de um obscuro festival na Toscana. Seu agente, Ron (Adam
Sandler), se desespera, porque é iminente o início das filmagens de uma nova produção. Os dois homens mergulham numa série de peripécias, que deixam exposta a própria distância emocional que suas profissões acabam cavando, já que a busca do sucesso está em primeiro plano.

Kelly, particularmente, olha para si mesmo e para episódios cruciais de seu passado, que se desenrolam ao vivo na tela, com uma visão reflexiva, eventualmente culpada, por aquilo que deixou de observar e que deixou para trás - como amizades, amores e maior atenção para as filhas, agora adultas e donas da própria vida. Em resumo, um filme sobre a solidão do sucesso.

Embora tenha bons momentos - como um episódio num trem na França -, o filme se ressente de um pouco mais de flexibilidade e humor, o que não é bem a praia do diretor Baumbach. Apesar desta camisa de força, o elenco tem participações de ouro de atores como Jim Broadbent, Lars Eidinger, Alba Rohrwacher, Laura Dern e Stacey Keach. Apesar destes reparos, parece o tipo do filme que o presidente do júri, Alexander Payne, poderia gostar - tendo até várias semelhanças com o enredo de seu filme Os Descendentes (2011), em que o mesmo Clooney procurava se reconectar com as filhas.

Drama de guerra

Tal como fez em seu celebrado O Filho de Saul (2015), o diretor húngaro Lazlo Nemes volta ao cenário da II Guerra Mundial em Orphan (foto ao lado), um drama pesado ambientado na Hungria dos anos 1950. O protagonista é o menino Andor (o talentoso Borjtorján Barabas). Resgatado pela mãe, Klara (Andrea Waskovics), de um orfanato onde ela, judia, o escondera, ele cresceu idealizando a figura do pai, que foi deportado - com quem ele conversa, imaginariamente, à noite, escondido na bomba de aquecimento do prédio onde mora.

Na Hungria sufocada pelos soviéticos após o levante de 1956, Andor e a mãe vivem em dificuldades econômicas, num ambiente em que dissidentes, como o irmão da amiguinha de Andor, Sári (Eliz Szabó), têm que desaparecer na clandestinidade.

O aparecimento de um homem misterioso, Berend (o ator francês Grégory Gadebois), coloca em xeque as certezas do garoto. O homem, um açougueiro, havia escondido sua mãe durante a guerra e Andor descobre que ele é provavelmente seu pai verdadeiro. Isso desencadeia toda uma crise de identidade. Certamente, pode-se ler a história desta pequena família como uma metáfora da Hungria. Mas o filme parece bem mais insatisfatório do que O Filho de Saul, embora o pequeno Borjtorján Barabas seja, desde já, um candidato ao prêmio Marcello Mastroianni, de revelação dos jovens talentos.