21/07/2026

Assayas volta seu foco para Putin em “The Wizard of the Kremlin”

Veneza - Diretor tanto de filmes autorais quanto de produções mais ambiciosas, o francês Olivier Assayas apresentou na competição do 82º Festival de Veneza um exemplo da segunda vertente. The Wizard of the Kremlin representa mesmo um passo maior do cineasta, ainda que tenha precedentes do gênero de thriller político como Carlos (2010) e Wasp Network - Rede de Espiões (2019).
O painel agora se detém nas quatro décadas recentes da Rússia. Pincela brevemente a queda do regime soviético e se constrói sobretudo na ascensão do líder Vladimir Putin vista pelos olhos e trabalhada pelas mãos de seu conselheiro maior, personagem real a que se refere o título.

"O mago do Kremlin" é como está traduzido no Brasil o livro de Giuliano da Empoli, escritor de família ítalo-suíça nascido na França. Assayas se baseia na obra e como tal adota o nome fictício de Vadim Baranov para o escritor, profissional de teatro e TV Vladislav Surkov, hoje com 35 anos. É interpretado por um ótimo Paul Dano, que divide o protagonismo com Jude Law como Putin. Todas as demais personagens do círculo de políticos, oligarcas e homens de influência em torno do “tzar” são apresentados com seus nomes reais, inclusive o magnata dono de canal de TV Boris Berezovsky.

Empregador de Baranov/Surkov em um reality show, foi ele quem apresentou o jovem ao ainda chefe da FSB, antiga KGB, dando início à escalada de Putin em 1999. O mandatário segue no Kremlin, como se sabe. Mas o ideólogo de sua figura para o mundo abandonou o ofício de chefe de gabinete e depois vice-primeiro-ministro em 2013, recolheu-se em sua datcha e sumiu de cena. Ali, Baranov, a personagem, terá morte misteriosa, assim como tantos do círculo pessoal de líder na realidade.

É nesse momento que o filme se inicia, quando um escritor consegue quebrar o silêncio do ex-assessor para um dia todo de conversa sobre seu passado. Do jovem um tanto perdido nos anos 80, mas com tino para avaliar as oportunidades no novo universo do capitalismo que se abria, ele ascende com a ajuda do empresário e capta os sentimentos e ânsias do momento. Cria o conceito um tanto abstrato na ideologia, dedicado mais a confundir do que surfar na corrente, batizado de democracia soberana. Deu certo, mais uma vez como se sabe.

São duas horas e meia, com uma miríade de personagens, situações de bastidor, rivalidades e diálogos extensos que não facilitam a fluência do filme. É um preço a pagar pela ambição de uma obra literária que não se propõe ao recorte mas sim à totalidade de um painel histórico e seus dois representantes maiores. Assayas assina o roteiro em parceria com o talentoso escritor Emmanuel Carrère, que tem curiosa aproximação com o mesmo contexto em função de sua biografia sobre Limonov.

Opositor de Putin, este é outra figura-chave daquele momento como jornalista, poeta e político do Partido Bolchevique Nacional. A personagem surge de modo breve e questiona o jovem braço-direito do chefe de estado sobre um caminho sem volta. Mas àquela altura ele já havia forjado sua própria lenda, até hoje controversa e sobre a qual o filme busca jogar luz.