Dois dramas e um anime femininos imprimem sua marca em Veneza
- Por Neusa Barbosa, de Veneza
- 04/09/2025
- Tempo de leitura 3 minutos
Veneza - Quarto concorrente italiano ao Leão de Ouro, Elisa, de Leonardo Di Costanzo, decolou na interpretação qualificada de Barbara Ronchi, no papel de uma mulher que matou a própria irmã e, dez anos depois, tem a chance de confrontar os próprios motivos.
Livremente inspirado num caso real, estudado pelos criminologistas Bruno Oliviero e Valia Santella, Costanzo desenvolve uma atmosfera psicologicamente tensa a partir do momento em que Elisa Zanetti (Barbara Ronchi), cumprindo sua sentença numa instituição-modelo na fronteira entre Itália e Suíça, concorda em conversar com um pesquisador francês, o dr. Alaoui (Roschdy Zem).
Não é exatamente terapia, embora o estudioso procure estimular Elisa, que sofreu de uma aguda amnésia após o crime, para que possa esclarecer melhor suas circunstâncias. Essas conversas permitem que a narrativa retrate aos poucos o ambiente da família Zanetti, da qual somente o pai (Diego Ribon) visita a filha na prisão.
Além de proporcionar à atriz-protagonista, vista em filmes como O Sequestro do Papa, de Marco Bellocchio, um grande papel, candidatíssimo a prêmios, o filme italiano propõe uma discussão ética sobre responsabilidade, culpa, redenção, perdão e muitos outros dilemas difíceis diante de crimes violentos. Algumas possibilidades se abrem a partir de discussões entre o criminólogo e a frequentadora de suas aulas, vivida pela atriz Valeria Golino.
Mesmo abordando um tema candente, o filme mantém sob controle os excessos emocionais, construindo uma narrativa sóbria e interessante.
É mais um título italiano de qualidade num ano em que são cinco os concorrentes locais às premiações principais. Além de Elisa, já foram vistos o drama La Grazia, de Paolo Sorrentino; a cinebiografia Duse, de Pietro Marcello, e o documentário Sotto le Nuvole, de Gianfranco Rosi. Falta assistir ainda ao quinto, Un Film Fatto per Bene, de Franco Maresco.
Mulheres sofridas
Uma verdadeira galeria feminina maltratada foi o que se viu no concorrente taiwanês Nuhai (Girl), da diretora estreante Shu Qi. Atriz conhecida por sua participação em filmes do consagrado Hou Hsiao-Hsien, como Millenium Mambo e A Assassina, Shu desfia a história de uma mulher jovem (a cantora 9m88), vítima de violência por parte do marido alcoólatra (o cantor Roy Chiu) e que desconta seu sofrimento e frustração contra sua filha mais velha, Lin Xiaoli (Bai Xiao-Ying), uma pré-adolescente de 12 anos.
Em entrevistas, a diretora contou que a história baseou-se em fatos de sua própria vida, mas não conseguiu transmitir à narrativa essa autenticidade de uma forma orgânica. Com peso e ritmo de novelão, o filme se arrasta por duas horas, em que a diretora não demonstra contenção nem piedade nem com seus personagens, nem com seu público.
Animação
Fora de competição, foi um espetáculo de encher os olhos a animação japonesa Scarlet, em que o veterano diretor Mamoru Hosoda desenvolve a história de uma princesa medieval, espadachim e lutadora. Scarlet é, na verdade, Hamlet no feminino. Filha do rei assassinado no século XVI, em Elsinore, pelo irmão, Cláudio, ela cresce aprendendo todo tipo de luta e manejo de armas para vingar o pai. Morta numa armadilha do mesmo tio, ela passa para uma outra dimensão, uma terra em que vivos e mortos, além de passado e futuro, se misturam com muita liberdade e riqueza de cenários. Não faltam ação, nem imaginação, nem riqueza visual a este belo e solitário representante da animação no festival, acompanhando as aventuras da princesa, ajudada por um enfermeiro-socorrista do século XXI, Hijiri, e povoada de inúmeros outros personagens, shakespearianos ou não.
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