04/06/2026

François Ozon atualiza o dilema ético de Camus em “L’Étranger”

Veneza - O diretor francês François Ozon foi buscar num clássico da literatura francesa dos anos 1940, "O Estrangeiro", de Albert Camus, a inspiração para seu drama em competição, L’Étranger - um filme elegante, filmado num belo preto-e-branco, que resgata o complexo dilema central de seu protagonista, Meursault (interpretado pelo jovem ator Benjamin Voisin, que esteve em Veneza 2024 com o drama Brincando com Fogo, das irmãs Delphine e Muriel Coulin).

Ao despojar de cores a ambientação da história, na Argélia do final dos anos 1930, Ozon já mostra ao que veio. Procura um despojamento das cores vibrantes e do sol escaldante do país do norte da África, na época uma colônia francesa. O colonialismo e o racismo contra os árabes - proibidos de frequentar certos lugares, como os cinemas - é tônica marcante como subtexto da história, em que um crime contra um jovem local desencadeia toda a discussão ética que o romance provoca há mais de 80 anos.

Tudo gira em torno de um ato incompreensível de Meursault, um modesto funcionário de escritório, que acaba de perder sua mãe e envolveu-se com uma jovem, Marie (Rebecca Marder). Ele é alguém que vive sempre no presente, aparentemente desprovido de preocupações morais, que fala sempre o que lhe vem à cabeça, sem prurido nem filtros.

Sua ligação com um vizinho, Raymond Sintès (Pierre Lottin), coloca-o em contato com um grupo de jovens árabes, com cuja irmã este francês mantém uma relação tóxica, de exploração. E, mesmo sem estar diretamente envolvido no caso, Meursault acaba matando um deles, um crime sem motivação estrita.

Toda a discussão gira em torno disso - quem é, finalmente, Meursault, o que guia suas escolhas? São fundamentais, por isso, suas manifestações no tribunal, em que a preocupação dos acusadores parece mais ser julgá-lo pela falta de lágrimas no sepultamento da mãe do que pela morte de um árabe, pessoa que os colonialistas desprezam. Outra conversa importante é com o capelão da prisão (Swann Arlaud), em que a falta de conexão religiosa do protagonista expande ainda mais os limites da discussão deste grande filme - que não é fácil, nem para muitos.

Quem conhece o livro, poderá avaliar melhor o valor da adaptação de Ozon e as suas precisas intervenções para trazer para a tela um romance tão minimalista e intenso.

A hecatombe de Bigelow

Numa produção para a Netflix, a premiada diretora norte-americana Kathryn Bigelow imagina a iminência de uma tragédia nuclear nos EUA em A House of Dynamite. Os sistemas de defesa do país detetam o disparo de um artefato nuclear que se dirige ao território norte-americano e que deve atingir uma grande cidade, Chicago, causando milhões de vítimas.

As movimentações de diversos setores, de autoridades militares a diversos departamentos da Casa Branca são retratadas com a habitual energia pela diretora vencedora do Oscar em 2010 por Guerra ao Terror. Um elenco qualificado, integrado por Rebecca Ferguson, Idris Elba, Jason Clarke, Tracy Letts e Greta Lee, é ponto alto. Mas, por outro lado, uma história em que os EUA possam ser vítimas de um ataque não-provocado, não se sabe se da parte da Rússia, Coréia do Norte ou dos habituais suspeitos da ideologia norte-americana (China, Irã e Paquistão são mencionados) parece muito incongruente num contexto mundial em que o belicoso Donald Trump é o presidente e o país é parte ativa nos maiores conflitos mundiais - Ucrânia e Gaza sendo os exemplos mais dramáticos disso. Ou seja, falta um maior estofo geopolítico ao roteiro, assinado por Noah Oppenheim.

Ou seja, o filme parece querer reencontrar um tempo, como ocorreu durante a parte final da II Guerra Mundial, em que os EUA pudessem caber na pele de heróis do mundo. Por isso, toda a chave da narrativa soa um tanto falsa.