Entre Proust e uma ligação entre pai e filho
- Por Alysson Oliveira
- 13/04/2026
- Tempo de leitura 5 minutos
Uma viagem nas muitas inspirações proporcionadas pela obra de Marcel Proust e um jogo de imaginação e memória entre um pai e um filho estão em destaque na terça-feira. Confira os detalhes:
Proust Palimpsesto: Pastiches e Misturas
Levar Marcel Proust ao cinema é sempre um desfio. Por isso mesmo,
é um grande acerto do documentário Proust Palimpsesto: Pastiches e Misturas não querer ser uma adaptação, mas um grande mergulho pós-moderno na modernidade do escritor francês autor de Em busca do tempo perdido.
Conhecido por sua obra desafiadora, o cineasta Carlos Adriano cria um documentário experimental de densa sensorialidade sobre os mundos de Proust, seja na literatura, em sua vida ou no momento histórico da produção de sua obra-prima. Mas, mais do que isso, como indica o subtítulo, o interesse vai além do francês, trazendo pastiches e misturas, numa combinação desenfreada que desafia o tempo e espaço, relacionando Proust a cineastas como Alfred Hitchcock, Alain Resnais, Orson Welles e Jean-Luc Godard – este, aliás, uma influência grande e clara aqui.
A ideia é que Proust e seu estilo de narrativa associativa são tão fortes que moldam as artes do século XX, mas, indo um passo além, tudo isso é desconstruído e reconfigurado a partir da segunda metade do século passado a partir das intervenções da pós-modernidade. O próprio título do longa se apropria de Gérard Genette, e o subtítulo, de obra do próprio Proust.
Num momento, vemos na tela Carmen Miranda, em cenas do filme Entre a Loura e a Morena, de Busby Berkeley, lançado em 1943, enquanto um texto da Dialética Negativa, de Theodor W. Adorno, comentando Proust, cobre a tela. O resultado é, no mínimo, uma afronta divertida ao filósofo alemão, sempre crítico à indústria cultural.
Como diz uma voz no filme: “Proust não anteviu que essa gramática do cinema seria estruturada justamente na analogia, na correspondência, na relação que ele tanto defendeu entre dois objetos diferentes.” Da ilusão do movimento à justaposição de dois planos para criar a narrativa, como contínua, são a base da construção do filme. E, nessa busca incessante, de correspondências entre passado e presente, entre duas coisas ditas distintas, é que esse documentário, enquanto ensaio experimental, ilumina nossa compreensão do presente.
Como os curtas de Carlos Adriano,
Proust Palimpsesto: Pastiches e Misturas é um filme exigente, que, em contrapartida, tem muito a oferecer a quem embarcar nessa jornada que subverte o tempo e as artes servindo de tubo de ensaio para um experimento que nos aproxima ainda mas da modernidade de Proust.
São Paulo – CineSesc - 14/04/2026 às 20:30
São Paulo - Cinemateca Brasileira - Grande Otelo - 15/04/2026 às 18:00
Rio de Janeiro - Estação NET Rio - Sala 3 - 15/04/2026 às 20:30
Rio de Janeiro - Estação NET Rio - Sala 5 - 15/04/2026 às 20:00
Rio de Janeiro - Estação NET Rio - Sala 3 - 16/04/2026 às 16:00
Filme de medo
Vencedor da Competição de longas e médias brasileiros no É Tudo Verdade de 2015 com O Futebol, Sergio Oksman volta ao festival com uma coprodução entre Espanha e Portugal, Um Filme de Medo, uma documentário curioso sobre filmes de terror, vida real e o jogo da memória.
Não que filmes de terror entrem de forma direta aqui, eles são coadjuvantes numa jornada que inclui Oksman, seu filho Nuno, e o cineasta e fotógrafo português Daniel Blaufuks. O filme tem, como um de seus cenários, um hotel abandonado – uma clara referência a O Iluminado, que o documentarista tomará para si, para lidar com fantasmas imaginários e reais, vindos de seu próprio passado.
O Residencial Terminus, em Lisboa, serve como palco para a investigação da construção de filmes de terror. O curta Os Crimes de Diogo Alves, de João Tavares, de 1911, é uma referência no gênero no cinema português. O sujeito do título era um espanhol que cometeu assassinatos em série em Portugal, no século XIX, e ficou conhecido como “assassino do aqueduto”. Em 2010, Oksman tentou fazer um filme sobre o mesmo personagem, mas não deu certo.
Em 2023, o cineasta e seu filho passam um tempo no citado residencial, contando histórias de terror, para que o menino aprenda mais a língua portuguesa, que ele não domina. Curiosamente, o local pouco impressiona o menino, já em processo de transição à adolescência. E, nesse sentido, é um filme de despedida: um pai aproveitando o último verão com filho na fase da infância. Depois as coisas mudarão.
Relações entre pai e filho não são novidade na obra de Oksman, radicado na Europa. Em seu longa premiado, ele reencontra o pai, que mora em São Paulo, durante a Copa de 2014. Há, nesse novo documentário, alguns momentos de uma primeira vista ao pai, juntando as pontas de seus dois filmes.
Ao meditar sobre a memória, o cinema e o que é o horror, Oksman investiga sobre nossos medos, mas também sobre como construímos nossa percepção do passado. Já a visita ao ANIM (Arquivo Nacional das Imagens em Movimento) revela a Nuno a importância de proteger documentos, filmes, enfim uma memória coletiva, responsável pela transmissão de conhecimento e de histórias do passado.
São Paulo - Cinemateca Brasileira - Grande Otelo - 14/04/2026 às 20:00
São Paulo - IMS Paulista - 15/04/2026 às 20:00
