05/06/2026

O lugar das emoções discretas de Kore-eda e James Gray

Cannes - Concorrente de peso do Japão, dono de uma Palma de Ouro em 2018 (por Assunto de Família), Hirokazu Kore-Eda mistura ficção científica e melodrama em mais uma história emotiva que tem crianças como personagens centrais em Sheep in the Box.

Ambientada num futuro próximo, em que se tornou possível criar andróides idênticos a pessoas falecidas, a história acompanha a experiência de Otone (Haruka Ayase), uma arquiteta que perdeu seu filho de 10 anos e aceita participar do novo projeto.

O menino (o estreante Rimu Kuwaki, escolhido entre 200 candidatos), é tão idêntico ao filho morto que aumenta a perplexidade do pai, Hensuke (Daigo Yamamoto), que não compartilha com a mulher o mesmo entusiasmo por essa espécie de ressurreição.

Neste novo filme, o experiente diretor demonstra a mesma sensibilidade para tratar de histórias sobre crianças vista no próprio Assunto de Família, além de outros de seus filmes, como Ninguém Pode Saber, O Que Eu Mais Desejo, Pais e Filhos e Monster. Além disso, demonstra que continua em dia sua imaginação, conectada com assuntos muito atuais, como a inteligência artificial. O roteiro, criado pelo próprio Kore-Eda, foi alegadamente inspirado por uma notícia de jornal.

Uma grande qualidade do diretor está no equilíbrio como leva esta história em dois eixos, o futurista, em que imagina a série de detalhes tecnológicos que a presença do androide implica, sem descuidar do impacto emocional que sua presença desencadeia dentro da família e da comunidade. E também não deixa de abrir uma brecha para imaginar que esses humanoides terão também a sua própria especificidade e desejo de independência, aprofundando uma ideia já esboçada em 2001, em A.I. - Inteligência Artificial, de Steven Spielberg, mas que aqui se amplia em muitas outras direções.

A irmandade complexa de Gray

Pela sexta vez competindo em Cannes, o norte-americano James Gray apresenta mais um relato centrado na irmandade, agora em Paper Tiger. Ambientado no Queens, em Nova York, em 1986, o foco está na relação entre dois irmãos, Irwin (Miles Teller) e Gary Pearl (Adam Driver).

A interdependência emocional destes dois homens bastante diferentes - Irwin, mais família e contido, Gary, mais ousado - enfrenta um desafio quando Gary se aproxima de mafiosos russos, que começam a atuar na região de um canal poluído, no Brooklyn. Irwin, convencido pelo irmão de que poderia prestar serviços técnicos a uma empreitada no lugar, acaba ameaçado, junto com os filhos, lançando sua família numa espiral de medo.

Gray é eficiente na condução destes climas, aclarando aos poucos as suspeitas quanto à atuação de Gary neste submundo. Ex-policial que agora vive de prestações de serviços de segurança, vale-se dos contatos que ainda mantém na polícia - o que sem dúvida é um atrativo para os mafiosos russos.

Fica mais interessante olhar o filme como o retrato de um patriarcado falido, em que a única mulher, Hester (Scarlett Johansson), mulher de Irwin, só consegue ser ouvida quando perde o controle - e seu maior drama íntimo permanece invisível para os homens que a cercam, o próprio marido e os dois filhos adolescentes. Ela chama para si esse papel altruísta, de proteger os homens de sua família, em silêncio, nos bastidores.

Mas o que Gray realmente procura é expor as contradições da fraternidade, que está no centro de tantos de seus outros filmes, como Fuga para Odessa (1994) e Os Donos da Noite (2007), e cuja lealdade intrínseca pode levar ao desastre, ao auto-sacrifício ou à esperança num futuro em que talvez não haja mais do que isso com que contar para a própria sobrevivência. Ou seja, Gray repete sua temática, embora o faça de maneira competente. Dele não se espera algo novo, mas apenas coerência com sua própria trajetória e isso ele mantém com a habitual sobriedade.