24/09/2026

Dia de durões em Cannes


Sicario, do canadense Denis Villeneuve (Os suspeitos), cravou uma nota mais sombria na competição pela Palma de Ouro, compondo um filme de gênero extremamente bem-realizado e de clima impiedoso, a partir de um roteiro de Taylor Sheridan, mais conhecido como ator de séries de TV.
É o tipo do filme que deve agradar aos presidentes do júri principal de Cannes este ano, os irmãos Joel e Ethan Coen, que partiram na carreira com filmes como
Gosto de Sangue
e
Ajuste Final.
O diretor de fotografia de
Sicario, aliás, é um velho colaborador dos Coen, o inglês Roger Deacon (que os acompanhou em vários filmes desde
Barton Fink – Delírios de Hollywood, vencedor da Palma de Ouro 1991).
Diretor versátil, Villeneuve comanda com mão firme a ação. A narrativa é eletrizante, pelo ritmo da história, que segue um mergulho no inferno da agente do FBI Kate Macer (Emily Blunt, numa guinada de carreira interessante aqui).
Oficial experiente, ela é convocada para integrar um time composto por agentes da CIA, como Matt (Josh Brolin) e Alejandro (Benicio del Toro), para uma operação de grande envergadura contra cartéis mexicanos na fronteira deste país com os EUA – que tem seu centro nervoso em Ciudad Juárez, uma das cidades mais violentas do mundo.
Os cenários são compostos com grande realismo e a música sinistra do islandês Jóhan Jóhannsson (parceiro de Villeneuve em Os Suspeitos) gela o sangue toda vez que toca – e é usada na justa medida, sem excessos.
A grande sacada do filme, no entanto, é não só colocar em primeiro plano uma visão do mundo como um palco de guerra permanente, um “tempo de lobos” (como define o personagem Alejandro) assim como trazer de volta um espírito do cinema independente norte-americano dos anos 1970 – vem à mente, por exemplo, A Conversação, de Francis Ford Coppola, numa outra chave, aquela que pode levar a refletir sobre como qualquer respeito a regras, qualquer protocolo legal está sendo pura e simplesmente abandonado em nome de um conceito autoritário de segurança. Ou seja, não há lugar para idealistas nem heróis.
Tal como outros filmes vistos aqui (Carol é um deles), Sicario deve estar acendendo em Cannes a centelha que incendiará uma carreira vibrante, quem sabe rumo aos Oscars do ano que vem. Benicio del Toro, por exemplo, está assustadoramente impecável.

Conto de fadas e incesto
Mais um concorrente francês, o terceiro, mais uma decepção. Marguerite & Julien, de Valérie Donzelli, retomou uma velha ideia, dos anos 1970, um roteiro original de Jean Grualt previsto para François Truffaut filmar, mas o fato é que nada deu certo aqui.O roteiro de Gruault, aliás, acaba de ser publicado aqui na França.
O ponto de partida original é a história, supostamente real, de dois irmãos incestuosos do século 17, filmada com um aceno aos contos de fada (mais uma vez lembrados em Cannes, tanto quanto o concorrente italiano Il Racconto dei Racconti, de Matteo Garrone), com algumas licenças modernas que, afinal, não se justificam: um helicóptero, um automóvel, um rádio e outros objetos de uma época diferente do filme (que é indefinida, mas visivelmente antiga, com direito a castelo e figurinos de outros séculos).
Marguerite (Anaïs Demoustier) e Julien (Jérémie Elkaim, tremendo canastrão) são esses irmãos apaixonados desde a infância, tragicamente destinados a um final infeliz, mas desafiando todos os tabus, a família, a Igreja Católica, o rei, a justiça, para viver essa paixão. Nunca se saberá o que Truffaut teria feito com um tema tão difícil, mas que já rendeu grandes filmes, como La Luna, de Bernardo Bertolucci e Um sopro no coração, de Louis Malle, para ficar por aí. Valérie Donzelli, atriz e diretora do drama A Guerra está declarada (2011), claramente, não deu conta de criar nada minimamente à altura disso. Mais uma vez, a pergunta foi inevitável: por que este filme foi selecionado, ainda mais na competição? Só muita patriotada explica.


1001 Noites – parte II
Na Quinzena dos Realizadores, a segunda parte da ambiciosa nova obra do português Miguel Gomes, As 1001 Noites – Volume 2, O Desolado, mostrou-se ainda melhor do que a primeira, exibida há dois dias na mesma seção. Uma extensa crônica dos problemas assolando Portugal, empobrecido por um plano de austeridade, imposto por um governo sem sensibilidade social – como sustentam os letreiros iniciais de cada parte da trilogia de Gomes, o segundo capítulo abre-se com a história de Simão sem tripas (o estreante Chico Chapas, um ex-soldado e comerciante de pássaros), um criminoso foragido.

Outras histórias se desenrolam num tribunal, presidido por uma juíza (Luísa Cruz) – um segmento que permite uma original superposição de casos e pontos de vista, além de um humor impagável – e também num condomínio suburbano, em que se sucedem histórias de fracasso, tristeza, sonho e também a posse de um cachorro, Dixie, por vários moradores. O cão, que se chama Lucky, na verdade, é um “ator”experiente, tendo aparecido em diversas produções espanholas, como Sombras de Goya, de Milos Forman.
Em que pese toda a ironia de Gomes, é visível que ele quer falar sério. O que está fazendo em As 100 Noites – cuja terceira parte será exibida amanhã – é uma crônica de tempos sombrios, carregada de um humanismo melancólico que só os portugueses sabem ter. É um dos melhores filmes da seleção do festival deste ano. Tomara que seja distribuído no Brasil.