Dia de durões em Cannes
- Por Neusa Barbosa, de Cannes
- 19/05/2015
- Tempo de leitura 5 minutos

Sicario, do canadense Denis Villeneuve (Os suspeitos), cravou uma nota mais sombria na competição pela Palma de Ouro, compondo um filme de gênero extremamente bem-realizado e de clima impiedoso, a partir de um roteiro de Taylor Sheridan, mais conhecido como ator de séries de TV.
É o tipo do filme que deve agradar aos presidentes do júri principal de Cannes este ano, os irmãos Joel e Ethan Coen, que partiram na carreira com filmes como
Gosto de Sangue
e
Ajuste Final.
O diretor de fotografia de
Sicario, aliás, é um velho colaborador dos Coen, o inglês Roger Deacon (que os acompanhou em vários filmes desde
Barton Fink – Delírios de Hollywood, vencedor da Palma de Ouro 1991).
Gosto de Sangue
e
Ajuste Final.
O diretor de fotografia de
Sicario, aliás, é um velho colaborador dos Coen, o inglês Roger Deacon (que os acompanhou em vários filmes desde
Barton Fink – Delírios de Hollywood, vencedor da Palma de Ouro 1991).

Diretor versátil, Villeneuve comanda com mão firme a ação. A narrativa é eletrizante, pelo ritmo da história, que segue um mergulho no inferno da agente do FBI Kate Macer (Emily Blunt, numa guinada de carreira interessante aqui).
Oficial experiente, ela é convocada para integrar um time composto por agentes da CIA, como Matt (Josh Brolin) e Alejandro (Benicio del Toro), para uma operação de grande envergadura contra cartéis mexicanos na fronteira deste país com os EUA – que tem seu centro nervoso em Ciudad Juárez, uma das cidades mais violentas do mundo.
Os cenários são compostos com grande realismo e a música sinistra do islandês Jóhan Jóhannsson (parceiro de Villeneuve em Os Suspeitos) gela o sangue toda vez que toca – e é usada na justa medida, sem excessos.
A grande sacada do filme, no entanto, é não só colocar em primeiro plano uma visão do mundo como um palco de guerra permanente, um “tempo de lobos” (como define o personagem Alejandro) assim como trazer de volta um espírito do cinema independente norte-americano dos anos 1970 – vem à mente, por exemplo, A Conversação, de Francis Ford Coppola, numa outra chave, aquela que pode levar a refletir sobre como qualquer respeito a regras, qualquer protocolo legal está sendo pura e simplesmente abandonado em nome de um conceito autoritário de segurança. Ou seja, não há lugar para idealistas nem heróis.
Tal como outros filmes vistos aqui (Carol é um deles), Sicario deve estar acendendo em Cannes a centelha que incendiará uma carreira vibrante, quem sabe rumo aos Oscars do ano que vem. Benicio del Toro, por exemplo, está assustadoramente impecável.

Conto de fadas e incesto
Mais um concorrente francês, o terceiro, mais uma decepção. Marguerite & Julien, de Valérie Donzelli, retomou uma velha ideia, dos anos 1970, um roteiro original de Jean Grualt previsto para François Truffaut filmar, mas o fato é que nada deu certo aqui.O roteiro de Gruault, aliás, acaba de ser publicado aqui na França.
O ponto de partida original é a história, supostamente real, de dois irmãos incestuosos do século 17, filmada com um aceno aos contos de fada (mais uma vez lembrados em Cannes, tanto quanto o concorrente italiano Il Racconto dei Racconti, de Matteo Garrone), com algumas licenças modernas que, afinal, não se justificam: um helicóptero, um automóvel, um rádio e outros objetos de uma época diferente do filme (que é indefinida, mas visivelmente antiga, com direito a castelo e figurinos de outros séculos).
Marguerite (Anaïs Demoustier) e Julien (Jérémie Elkaim, tremendo canastrão) são esses irmãos apaixonados desde a infância, tragicamente destinados a um final infeliz, mas desafiando todos os tabus, a família, a Igreja Católica, o rei, a justiça, para viver essa paixão. Nunca se saberá o que Truffaut teria feito com um tema tão difícil, mas que já rendeu grandes filmes, como La Luna, de Bernardo Bertolucci e Um sopro no coração, de Louis Malle, para ficar por aí. Valérie Donzelli, atriz e diretora do drama A Guerra está declarada (2011), claramente, não deu conta de criar nada minimamente à altura disso. Mais uma vez, a pergunta foi inevitável: por que este filme foi selecionado, ainda mais na competição? Só muita patriotada explica.

1001 Noites – parte II
Na Quinzena dos Realizadores, a segunda parte da ambiciosa nova obra do português Miguel Gomes, As 1001 Noites – Volume 2, O Desolado, mostrou-se ainda melhor do que a primeira, exibida há dois dias na mesma seção. Uma extensa crônica dos problemas assolando Portugal, empobrecido por um plano de austeridade, imposto por um governo sem sensibilidade social – como sustentam os letreiros iniciais de cada parte da trilogia de Gomes, o segundo capítulo abre-se com a história de Simão sem tripas (o estreante Chico Chapas, um ex-soldado e comerciante de pássaros), um criminoso foragido.

Outras histórias se desenrolam num tribunal, presidido por uma juíza (Luísa Cruz) – um segmento que permite uma original superposição de casos e pontos de vista, além de um humor impagável – e também num condomínio suburbano, em que se sucedem histórias de fracasso, tristeza, sonho e também a posse de um cachorro, Dixie, por vários moradores. O cão, que se chama Lucky, na verdade, é um “ator”experiente, tendo aparecido em diversas produções espanholas, como Sombras de Goya, de Milos Forman.
Em que pese toda a ironia de Gomes, é visível que ele quer falar sério. O que está fazendo em As 100 Noites – cuja terceira parte será exibida amanhã – é uma crônica de tempos sombrios, carregada de um humanismo melancólico que só os portugueses sabem ter. É um dos melhores filmes da seleção do festival deste ano. Tomara que seja distribuído no Brasil.
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