21/07/2026

Uma noite de mulheres no Cine Ceará

Fortaleza - Foi uma noite toda feminina, com uma programação trazendo dois curtas e um longa assinados por mulheres na competição do Cine Ceará.

Um representante do raro cinema de Porto Rico, Perfume de Gardenias, da realizadora Macha Colón, foi o longa, compondo uma imagem peculiar deste pequeno país, que é um estado associado aos EUA.

A própria identidade contraditória do país transpira nas entrelinhas de um filme, primeira ficção da documentarista Macha, que combina drama, humor negro e musical. Falando na coletiva via zoom, a diretora admitiu que “acabou entrando bem mais música no filme do que eu planejara a princípio". Isto proporciona uma espécie de comentário vital à história de um grupo de senhoras idosas, liderado pela viúva Isabel (a veterana atriz Luz María Rondón).

Recém-viúva, morando sozinha numa grande casa, ela procura ocupar-se e dar sentido à sua vida. Por seu particular bom-gosto com arranjos de flores, ela acaba convidada a integrar um grupo de idosas que se dedica à decoração de velórios, esmerando-se de tal modo na originalidade de seus cenários que eles parecem verdadeiras instalações. Há um lado mais sinistro neste grupo, no entanto, com que Isabel não tardará a ter que lidar.

A diretora comentou também ter procurado dar visibilidade a personagens de mais idade, que comumente são marginalizados, à medida que envelhecem, tanto na ficção como na vida real. Um toque documental entra no cenário principal das filmagens, uma rua de casas de classe média cuja arquitetura é também uma espécie de cartão de identidade desse grupo social em Porto Rico.

Outro grupo visibilizado no filme é a comunidade LGBTQI+, simbolizada pela personagem Julia (Blanca Rosa Rovira), que em determinado momento tem uma interação singular com Isabel.

Falando especificamente da produção de filmes em Porto Rico, a diretora destacou que o seu projeto foi um dos dez beneficiados por um fundo público que existia até recentemente e não existe mais. Ela também contou com verbas de outros fundos do exterior, como o Ibermedia e do Festival de Tribeca (Nova York), onde seu filme foi exibido em junho.

Curtas
Pautas identitárias permearam também o curta Como Respirar Fora d’Água, das diretoras Júlia Fávero e Victoria Negreiros (SP), um trabalho de conclusão de curso na ECA-USP. A protagonista é Jana (Raphaella Rosa, premiada como melhor atriz no recente Mix Brasil), uma jovem nadadora negra que sofre violência policial numa abordagem na rua e tem dificuldades de lidar com isso, inclusive pela reação de seu pai policial. O produtor Ricardo Santana, que representou o filme no debate, destacou a contribuição da montadora Vânia Debs, recentemente falecida e que foi orientadora deste trabalho, que vem sendo exibido em diversos festivais.

O outro curta da noite, Mar Concreto, de Júlia Naidin (RJ), compõe um diário sobre a resistência à destruição gradativa da localidade de Atafona, um distrito de São João da Barra, pela erosão, processo em que o mar vem carregando ruas e casas, ameaçando a sobrevivência daquela comunidade. Na coletiva, a diretora contou sobre o projeto que ela integra, em Atafona, que realiza diversas intervenções artísticas na localidade visando despertar a consciência e proporcionar formas de identificação dos moradores locais com suas ligações com o lugar onde vivem.