21/07/2026

A atração fatal, segundo Claire Denis

Berlim - Pela primeira vez na competição em Berlim, a veterana francesa Claire Denis imprimiu ao seu drama amoroso Avec Amour et Acharnement, sua habitual mão pesada - e que aqui não funciona tão bem, especialmente na segunda metade do filme.

Contando com atores bem experientes, como o casal formado por Sara (Juliette Binoche) e Jean (Vincent Lindon), a diretora decola um drama que, na primeira metade, retrata a paixão desse par que vive junto há 9 anos e vê uma sombra do passado ressurgir quando reaparece na vida deles um antigo amor de Sara e amigo de Jean, François (Grégoire Colin).

Há uma interdependência profissional que une Jean a François quando este último convida o primeiro a juntar-se a ele num novo negócio de agenciamento de jogadores juvenis de futebol - um convite que cai melhor ainda a Jean, com um passado de ex-presidiário que a história nunca se preocupa em detalhar, nem faz falta.

A questão central que desestrutura tudo é a repentina recaída na atração entre Sara e François, que nunca é orgânica na narrativa, especialmente por conta do desenvolvimento um tanto insatisfatório da personagem feminina. A maneira como Sara sucumbe a esta antiga ligação não parece compatível com o perfil da personagem, uma bem-sucedida radialista, mulher independente e em idade madura que, muitas vezes, age com a psicologia de uma adolescente insegura.

Este tipo de papel, que Binoche tem repetido muito em sua carreira, na verdade, não lhe cai tão bem. Há uma nítida sensação de obviedade e repetição, tanto em sua personagem como, aliás, no filme todo. Por mais que se evidencie sua intenção de se afastar de uma visão romantizada do amor, Claire Denis, dessa vez, não acertou.
Pensando, aliás, em outro filme francês da competição, La Ligne, de Ursula Meier, uma dúvida surge - por que o cinema francês atual anda tão histérico, com personagem aos gritos, mergulhados em crises nervosas infinitas? O que acontece, afinal, com estas famílias, ligações, mulheres? Fruto do cansaço infinito desta pandemia infernal?