O filme-denúncia chega a Berlim
- Por Neusa Barbosa, de Berlim
- 12/02/2022
- Tempo de leitura 2 minutos
Berlim - Concorrente alemão ao Urso de Ouro, Rabiye Kurnaz versus George W. Bush, do veterano Andreas Dresen, afastou a competição dos dramas familiares dos primeiros dias, deslocando-a para a denúncia política - ganhando mais força ainda por ser um drama baseado em fatos dolorosamente reais
Impossível não se apaixonar por essa mãe turca, Rabiye Kurnaz, interpretada com toda a paixão e um inesperado humor - totalmente cabível, porque é parte de sua personalidade - pela atriz Meltem Kaptan, que se tornou uma candidata seríssima ao prêmio de melhor atriz.
Jornada no inferno
Resgatando a história de Murat Kurnaz, jovem de origem turca radicado na Alemanha com sua família que passou cerca de 5 anos preso, a partir do final de 2001, sem acusação nem julgamento, em Guantánamo, na esteira da histeria pós-11 de Setembro, o drama de Andreas Dresen mantém sua pulsação em torno da luta incansável dessa mãe comum, de classe média, para salvar o filho. Ela é apaixonada, engraçada, vital, enérgica, tornando-se o eixo do filme e mantendo-o numa chave mais alto astral do que se esperaria, dado o tema, porque nunca se vai realmente a Guantánamo.
O foco está na luta desta mãe, ao lado de um dedicado advogado de direitos humanos, Bernhard Docker (Alexander Scheer), que encarou burocracias e hipocrisias aparentemente invencíveis, colocadas em funcionamento por governos ditos democráticos, como a Alemanha e os EUA. A Alemanha, por exemplo, não moveu uma palha para obter a libertação de Murat, jovem de 19 anos seduzido pela propaganda fanática islâmica que sai do país para o Paquistão e acaba vendido ao serviço secreto norte-americano antes de que tenha tido sequer tempo de participar de qualquer ação terrorista. Apesar de não ter cometido nenhum crime, passou cerca de 5 anos não só preso, como sendo torturado, um período que se estendeu além do razoável já que a Alemanha ignorou uma tentativa de soltá-lo ao final de 2002 - além de ter kafkianamente revogado sua permissão de residência (sendo de origem turca e sem passaporte alemão, ele deveria renovar de tempos em tempos essa permissão, o que evidentemente era impossível durante sua prisão).
Dresen conduz a história com a clareza necessária para despertar empatia pela situação da família Kurnaz, que inclui o pai operário Mehmet (Nazmi Kirik) e dois outros filhos, colocando ênfase nos graves perigos que o mundo corre quando resolve jogar para o alto o respeito às regras democráticas, em nome do que quer que seja - seja o combate ao terrorismo, às drogas ou a corrupção.
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