21/07/2026

Brasil tem presença discreta mas vigorosa em Berlim

Berlim - O Brasil teve uma presença modesta na 72ª edição de Berlim, mas os poucos filmes nacionais chamaram a atenção, alguns até recebendo prêmios - os mais importantes, o Urso de Prata (Prêmio do Júri) para o curta Manhã de Domingo, de Bruno Ribeiro, e o Teddy Bear para Três Tristes Tigres, de Gustavo Vinagre. Na seção paralela Panorama, em que o público é quem vota, o drama goiano Fogaréu, da estreante em ficção Flávia Neves, emplacou o terceiro lugar entre os favoritos.

Entre o piano e o luto
Carioca, 27 anos, Bruno Ribeiro, diretor do curta Manhã de Domingo, viajou para Berlim contando com o resultado de uma campanha de arrecadação pela internet, diante da atual falta de apoio de políticas públicas para realizadores que participam de festivais internacionais.

Intimista, o curta retrata Gabriela (Raquel Paixão), uma pianista lutando com emoções conflitantes, entre o luto pela perda da mãe e a perspectiva do primeiro grande recital de sua vida. A história tem um fundo autobiográfico, já que o diretor perdeu sua mãe durante a pandemia - e dedicou o prêmio a ela, que, segundo ele, foi sua grande incentivadora para abraçar o cinema. Segundo informações da produtora, Reduto Filmes, o filme ainda seguirá um circuito em festivais antes de sua exibição em plataformas e salas.

Três nas ruas de S. Paulo
Vencedor do Teddy Bear, prêmio dedicado a filmes de temática LGBTQI+ do festival, Três Tigres Tigres, de Gustavo Vinagre, exibido na seção Fórum, acompanha a jornada de três personagens queer, Pedro (Pedro Ribeiro), Isabella (Isabella Pereira) e Jonata (Jonata Vieira) pelas ruas de São Paulo, durante a pandemia causada por um vírus que produz maiores estragos no cérebro e na capacidade de memória das pessoas. Habituê da Berlinale, Vinagre já exibiu aqui antes seus longas A Rosa Azul de Novalis (2019) e Vil, a Má (2020).

Revolta na periferia
Selecionado também na seção Fórum - não competitiva e contemplando filmes de ousadia de linguagem, outro diretor goiano, o premiado Adirley Queirós, aprofundou o estilo engajado de obras anteriores - como Branco Sai, Preto Fica e Era Uma Vez Brasília - , mesclando uma pegada documental, nutrida pela realidade social, com um toque de ficção científica distópica em Mato Seco em Chamas, uma coprodução com Portugal codirigida por Joana Pimenta (que já fizera a fotografia de Era uma vez Brasília quatro anos atrás).

Numa trama impregnada de poder feminino, resgata-se a história de Chitara e Léa, duas irmãs raçudas que tocam um negócio “gasolineiro” - com a extração clandestina de petróleo de um terreno que abriga oleodutos, logo cercado pelas irmãs e defendido por elas na ponta das armas. Sua rede de distribuidores é formada por motoqueiros. Seu lema está fixo na bandeira que tremula no alto, em que se lê: “O petróleo é nóis”.

Nessa sua mistura de gêneros, o filme incorpora falas candentes dessas duas mulheres, atrizes naturais que, visivelmente, conhecem por dentro a vida na periferia, delimitada pela ausência de Estado, a onipresença do crime e a perseguição da polícia. Outros habitantes nesse universo são as igrejas evangélicas e o circuito musical popular-brega, moldando o retrato de uma realidade em ponto de ebulição, explodindo em contradições por todos os poros.

Em determinados momentos, a realidade pura e dura invade o filme, com trechos filmados em manifestações pró-Bolsonaro antes de sua eleição e também a partir de um incidente real com Léa que muda o rumo da filmagem, mas não a interrompe, mantendo esse diálogo orgânico entre realidade e ficção que é tão caro a Adirley.

Com sua energia, Mato Seco em Chamas coloca na tela a efervescência das periferias brasileiras, com o habitual espírito anárquico-demolidor pelo qual Adirley se tornou conhecido. Seu filme grita pela transgressão, pela saída dessa situação tão insuportável e acachapante - não só de Chitara e Léa, do país inteiro.

Fogaréu
Igualmente assinado por uma cineasta goiana, Flávia Neves, Fogaréu, terceiro colocado na votação do público na seção Panorama, relata uma história familiar enraizada em temas candentes no país - o patriarcalismo, o agronegócio predatório e os direitos indígenas.

Numa história também com forte teor feminino, a protagonista é Fernanda (Bárbara Colen, de Bacurau), jovem que volta a uma cidadezinha do interior de Goiás para acertar velhas pendências de sua história familiar com o tio, Antônio (Eucir de Souza), irmão de sua falecida mãe, Cecília.
O choque dessa mulher independente, criada fora dos padrões ultra-conservadores do lugarejo, incendeia os conflitos, escancarando a permanência de estruturas arcaicas - como é o caso das “bobas”, como são chamadas as filhas de criação não só desta como de várias famílias locais, órfãs que há muito vivem com eles, em troca de casa e comida, numa relação de servidão, abuso e virtual escravidão.