21/07/2026

Berlinale à espera dos prêmios


Berlim
- Dia de premiação na Berlinale, hora de balanço e apostas. A verdade é que, apesar das pressões dos controles sanitários, da ausência da homenageada da 72a. edição, Isabelle Huppert - que está com covid -, o cinema prevaleceu e a seleção mostrou vigor, ousadia e conexão com temas relevantes.

Por aqui, viram-se ótimos títulos, com obras de peso vindo de onde se esperava - caso do veteraníssimo Paolo Taviani, 90 anos, que em seu Leonora Addio, ousa na linguagem, assinando um filme que, na verdade, são vários, mesclando preto-e-branco e cores. A costura de suas narrativas múltiplas é inspirada pelo siciliano Luigi Pirandello (1867-1936), tecendo-se histórias que resgatam seu prêmio Nobel de literatura, em 1934, sua morte, dois anos depois, os curiosos acidentes que permearam o deslocamento de suas cinzas, de Roma para sua terra natal, Agrigento, na Sicília. Mas o filme inclui em sua montagem trechos de vários outros, de Michelangelo Antonioni, Alberto Lattuada e dos próprios irmãos Taviani (Kaos, baseado, aliás, em histórias de Pirandello), concluindo com um relato intrigante do próprio Pirandello, Il Chiodo, escrito pouco antes de sua morte e que sintetiza como poucos de seus textos a complexidade original deste escritor e dramaturgo.

Leonora Addio foi, aliás, um dos poucos filmes a receberem aplausos nas sessões de imprensa, saudando essa lufada de luz e ar fresco que sai das mãos desse cineasta veteraníssimo, que a vida toda trabalhou com seu irmão, Vittorio - morto em 2018 e a quem este filme é dedicado. Foi com o irmão, também, que Paolo venceu um Urso de Ouro pelo esplêndido César Deve Morrer, em 2012. Quem sabe não é hora de ganhar um outro?

Minimalismo enganador
Conjugando, mais uma vez, seu minimalismo enganador, que encobre sua sofisticação com uma aparente simplicidade, o cineasta sul-coreano Hong Sang-soo também recorreu ao preto-e-branco - na maior parte do tempo - para construir seu relato em The Novelist’s Film - sua sétima indicação ao Urso de Ouro (com duas premiações com Urso de Prata, em 2020, com A Mulher que Fugiu, em cartaz no Brasil, e 2021, com Introduction).
Tanto quanto Paolo Taviani, Sang-soo reflete sobre a natureza do próprio cinema ao acompanhar os incidentes e encontros fortuitos de uma romancista, Junhee, que num determinado momento resolve que quer fazer um filme com uma atriz famosa que acabou de conhecer, Killsoo (Kim Min-hee, a musa do diretor, que atua em praticamente todos os seus filmes).

Com uma câmera, como de hábito, bastante parada nos personagens, o filme evolui por suas palavras, que instigam a imaginação do espectador a procurar decifrar quem são aquelas pessoas, o que pretendem e que jogo o próprio diretor está jogando com sua história. Aparentemente despretensiosa, a narrativa deixa escapar pequenos “descuidos” técnicos, como uma luz estourada, o som do vento que invade os microfones numa cena externa, sugerindo que o cinema, como a vida, é imperfeito e cheio de acasos. Mais uma pequena joia deste diretor tão instigante.

No campo catalão
Diretora do sensível Verão 1993, a jovem cineasta catalã Carla Simón, 36 anos, encantou com o drama Alcarràs, a crônica visceral da vida de uma família de agricultores ameaçada pela disposição dos proprietários da terra de mudar radicalmente o seu uso. A família, que há duas gerações planta frutas ali, não tem o título da propriedade - décadas atrás, valia a palavra que hoje a geração atual não respeita mais, para angústia do patriarca, Rogelio (Josep Abad).

Com uma câmera sempre muito próxima da pele de seus personagens - trabalho de Daniela Cajías -, o filme situa o drama de Quimet (Jordi Pujol Dolcet), sua mulher, Dolors (Anna Otin), seus filhos e outros parentes, de uma forma muito urgente, alternando os olhares, os pontos de vista. Assim, coloca em foco a ameaça não só a uma família, mas a um modo de vida, dentro de uma perspectiva inclusive ambiental, de uma forma muito inteligente e intimista ao mesmo tempo.

Carla Simón, credencia-se, assim, a ocupar um espaço de maior importância no cinema mundial, entre as várias diretoras que, aqui na Berlinale, deram seu recado de forma original e afirmativa: a mexicana Natalia López Gallardo, com Robe of Gems; a alemã Nicolette Krebitz, com AEIOU; a norte-americana Phillis Nagy, com Call Jane.

Ensaio de escândalo
Talvez a maior decepção da competição tenha sido o concorrente canadense Un Été Comme Ça, em que o diretor Dénis Côté, a partir de um roteiro próprio, retrata uma espécie de retiro terapêutico para jovens com sérias fixações sexuais - Geisha (Aude Mathieu), Léonie (Larissa Corriveau) e Eugènie (Laure Giappiconi). Supervisionadas por uma terapeuta, Octavia (Anne-Ratte Polle), e seu auxiliar, Sami (Samir Guesmi), essas mulheres narram suas histórias de maneira franca e vivem, depois, várias delas - num processo cinematográfico um tanto voyeurístico, impregnado de um olhar masculino tóxico e muito pouca profundidade e humanidade. Parece não ter passado da tentativa de filme-escândalo da estação, realizada por um diretor sem o menor talento para ser um novo Luis Buñuel.

Um festival com peso feminino
Contrariamente ao que costuma acontecer na média dos festivais, a Berlinale não teve falta de bons papeis femininos, numa seleção competitiva de 18 títulos, sendo sete assinados por diretoras. Entre essas atrizes que causaram repercussão e poderiam vencer hoje o prêmio de interpretação estão certamente Meltem Kaptan (Rabiye Kurnaz versus George W. Bush), Noémie Merlant (Un año, una noche), Sophie Rois (AEIOU), Michèle Brand (Drii Winter), Nailea Norvind (Robe of Gems), Charlotte Gainsbourg (Les Passagers de la Nuit) e Hai-Qing (Return to Dust).

Entre os atores, causaram impressão Michael Thomas (Rimini),
Dénis Menochet (Peter von Kant), Nahuel Pérez Biscayart (Un año, una noche), Milan Herms (AEIOU), Henlin Wu (Return to Dust) e Alexander Scheer (Rabiye Kurnaz versus George W Bush). Agora, está nas mãos do júri presidido por M. Night Shyamalan e integrado pelo diretor brasileiro Karim Aïnouz.