21/07/2026

“Call Jane” resgata a luta pelo aborto nos EUA dos anos 1960

Berlim - Roteirista do primoroso drama Carol, de Todd Haynes (2015), a diretora Phyllis Nagy imprime a este seu primeiro filme para cinema a pungência de uma questão polêmica, o direito ao aborto, resgatando a luta, no final dos anos 1960, que levou à sua legalização nos EUA, que ocorreu no julgamento do caso Roe vs Wade pela Suprema Corte, em 1973.

O roteiro, assinado por Hayley Schore e Roshan Sethi, personaliza a história, dando rosto e nome a várias mulheres cujas vidas são afetadas pela necessidade de recorrer a um aborto ou de ajudá-las a obtê-lo. O elenco inclui duas estrelas, Elizabeth Banks, na pele de uma dona de casa de classe média alta, Joy Griffin, abalada por uma gravidez de alto risco, e Sigourney Weaver, no papel de Virginia, a coordenadora de uma rede clandestina que proporciona aborto a quem a procura - identificada pelo codinome de “Call Jane”, divulgando seu telefone em pontos de ônibus de bairros populares.

Que isto ocorra em 1968, quando os EUA são sacudidos por movimentos na rua contra a Guerra do Vietnã, apenas aumenta a temperatura da história, que pontua seu feminismo na carne de uma série de personagens muito reais.

É o caso de Joy, uma dona de casa até ali bastante alienada em sua vida caseira, ao lado do marido advogado, Will (Chris Messina) e uma filha de 15 anos, Charlotte (Grace Edwards). Sua personagem tem um arco de crescimento fascinante, a partir do momento em que ela tem negada, pelo corpo diretor de um hospital, uma licença especial para abortar, já que sua gravidez afeta seu coração e coloca sua vida seriamente em risco. Quando Joy percebe que, para o grupo de médicos, o foco está no nascimento de uma criança saudável e não na vida da mãe, ela começa a mudar. E o contato com a rede clandestina de aborto em torno do Call Jane apresenta-a a um mundo totalmente novo, em que a diversidade feminina se coloca em pauta.

Se ficasse limitada a sua vidinha de sempre, Joy nunca encontraria alguém como Gwen (Wunmi Mosako), uma mulher negra sem papas na língua, dedicada a obter o acesso ao aborto para suas irmãs de cor, as mais pobres e desprotegidas também nessa questão.

Um dos pontos fortes da dramaturgia está em não edulcorar os participantes do Call Jane, colocando em foco suas contradições e até aspectos preocupantes sobre alguns de seus membros. Isso fortalece o filme, que não tenta transformar ninguém em heroi, embora claramente tome partido, oferecendo muito material para quem quiser refletir honestamente sobre um assunto tão carregado de moralismo, religião mal-colocada e interesses políticos não raro escusos.

Por tudo isso, e até porque, neste momento, o entendimento da Suprema Corte em 1973 corre o risco de ser alterado pela atual Suprema Corte, devido a algumas legislações estaduais que têm eliminado o direito ao aborto, Call Jane chega também como um manifesto, procurando romper o risco de um retrocesso, embasado no pensamento único.