04/06/2026

Diretor iraniano transforma coletiva numa ode à liberdade 

Cannes - Confirmando a tradição de que o melhor chega no fim, o festival assistiu nessa sua reta final ao filme e ao diretor mais impactante da 77ª edição,The seed of the sacred fig, do iraniano Mohammad Rasoulof, tanto pelo que se vê na tela como pelas circunstâncias que cercaram a própria produção do filme e a fuga do diretor do país, onde se encontra condenado a uma sentença que inclui prisão, chibatadas e confisco de bens.
Por todo esse contexto, houve muito assunto na concorrida coletiva do diretor, nesta manhã de sábado (25), à qual Rasoulof compareceu acompanhado das duas atrizes que interpretam as filhas no seu filme, Setareh Maleki e Mahsa Rostami - que, como ele, também tiveram que exilar-se do país. Os dois protagonistas, Missagh Zareh e Soheila Golestani, não puderam vir a Cannes, assim como diversos membros da equipe, como o diretor de fotografia, a figurinista e o engenheiro de som, que tiveram os passaportes confiscados.

Centelha inicial

Na coletiva, Rasoulof contou a origem da idéia de seu roteiro, que acompanha o desmoronamento de uma família, cujo pai, Amin (Missagh Zareh), faz parte do aparato repressivo do estado, como juiz-investigador (o que seria um equivalente a um promotor no Brasil). O diretor iraniano revelou que diversas cenas do filme foram inspiradas em situações reais que ele viveu, quando esteve preso, juntamente com outro famoso cineasta premiado no exterior, Jafar Panahi. “Muitos quando virem o filme reconhecerão aqueles corredores”, afirmou.
Rasoulof relatou que, quando ele e Panahi estavam presos, ficavam “impactados pelas demonstrações que ocorriam fora da prisão”, que eram protestos pela liberdade de expressão e por mais direitos para as mulheres (inclusive relativamente ao uso obrigatório do hijab). “Conversávamos muito sobre o que ocorria fora daqueles muros”.

Um dia, um prisioneiro que estava na mesma cela deles iniciou uma greve de fome e ficou em estado crítico de saúde. Funcionários do governo vieram examiná-lo para avaliar o perigo de sua condição e um deles deu uma caneta de presente a Rasoulof. Depois, confidenciou ao cineasta que todos os dias olhava para a pesada porta da entrada da prisão e se perguntava quando acabaria por enforcar-se diante dela. O motivo, segundo confessou, é que todo dia seus filhos lhe perguntavam o que estivera fazendo no trabalho e isso o angustiava. Foi essa a centelha inicial do roteiro que finalmente Rasoulof concluiu em The seed of the sacred fig.

Tensão na filmagem

O próprio filme foi concluído em circunstâncias extremamente difíceis. Com um terço apenas da filmagem encaminhada, o cineasta recebeu o aviso de sua prisão iminente e não sabia se poderia terminá-la. “Não sabia quanto tempo teria entre a sentença e a prisão. Consultei advogados e me disseram que o prazo seria cerca de um mês. Obviamente, isto criou uma tremenda pressão sobre mim. Pensei que ficaria ao menos 5 anos na prisão e o próprio filme acarretaria que a sentença fosse estendida”.
O cineasta também admitiu ter contado com a própria lentidão do aparato judiciário para concluir o filme, enviando o material filmado ao seu montador, “no qual tenho total confiança”, e aos colegas fora de seu país que se encarregaram da pós-produção (os nomes não são mencionados por questão de segurança).

A decisão de abandonar o Irã veio na sequência dos acontecimentos. “Poucos dias após o feriado do Ano Novo, recebi a notícia da manutenção da sentença e que teria uma semana para apresentar-me. Tudo teve que ser apressado, pois a existência do nosso filme foi descoberta e o serviço secreto passaria a procurar as pessoas que o realizaram”. A decisão de sair do país foi tomada em 2 horas, segundo ele. “Dei adeus a minhas plantas, de que gosto muito e são muitas. Olhei pela janela e vi a montanha e também a prisão de Ebbi, que avisto dali. Deixei minhas coisas para trás e saí. Optei pelo Irã cultural que existe fora das fronteiras”, afirmou.

A própria passagem pela prisão acabou ajudando a fuga. “Na prisão, você conhece todo tipo de pessoas, inclusive esses atravessadores que ajudam os outros a sair do país. Eles me ajudaram a chegar a um lugar seguro perto da fronteira, depois a um outro país que não quero mencionar. Finalmente, entrei na Europa e fui para a Alemanha”. A escolha da Alemanha motivou-se a que esse país já tinha em seus registros as impressões digitais de Rasoulof - que evidentemente viajou sem passaporte - e, assim, foi possível confirmar sua identidade.

Nova geração

Indagadas sobre sua expectativa em relação ao futuro do Irã, as duas jovens atrizes foram incisivas. Especialmente Setareh Maleki, que interpreta Sana, a filha caçula no filme, afirmou: “Não tenho esperança de que essa situação mude em breve, tenho certeza de que muito em breve teremos essa vitória”.
Mahsa Rostami, que interpreta a irmã mais velha, Rezvan, destacou que ela mesma foi ferida nos protestos em seu país e que o filme, para ela, “foi a possibilidade de me expressar sobre isso e trabalhar com este homem extraordinário”, disse, referindo-se ao diretor. E concluiu: “Tenho muita esperança pelo Irã e muito orgulho de Soheila Golestani (a colega atriz que interpreta sua mãe e não pôde sair do país) como símbolo de resistência das mulheres”.
A resistência feminina, que está por trás de muitos protestos, é exposta no filme também pelas próprias imagens de suas atrizes em situações domésticas, sem o hijab - o que é raro em filmes iranianos, por conta da severa censura religiosa. Rasoulof, por sua vez, destacou “o quanto ficamos felizes de fazer um filme em que as mulheres possam mostrar seus rostos e não usarem hijab - o que em outros países pode não ser entendido”. Por isso, o diretor destacou a importância de que os cineastas independentes de seu país “procurem uma linguagem internacional para que suas obras possam ser compreendidas”.

Religião

Indagado sobre sua opinião sobre a religião, que está no centro da República Islâmica do Irã, o diretor afirmou: “Não falamos em religião no sentido estrito da palavra. O que existe é um processo de uma pessoa deixar dominar sua mente. Querem fazê-lo doutrinando sua mente, trata-se de uma arma ideológica. Essa é uma ditadura que torna o povo iraniano refém”.