Três candidatos, três estilos
- Por Neusa Barbosa, de Cannes
- 19/05/2024
- Tempo de leitura 5 minutos
Cannes - A 77ª edição de Cannes está dando destaque a veteranos, como é o caso do roteirista e diretor norte-americano Paul Schrader, que compete pela Palma com o drama Oh Canada! (foto ao lado). Em 2022, Schrader apresentou O Jardim dos Desejos, fora de competição, em Veneza. O filme estreia nos cinemas do Brasil no dia 6 de junho.
Baseado num romance de Russell Banks - de quem Schrader havia filmado outro livro em Temporada de Caça (1997) - Oh Canada conta a história de Leonard Fife (Richard Gere, voltando à Croisette depois de quatro décadas), um norte-americano radicado no Canadá desde que decidiu fugir à convocação para a Guerra do Vietnã, tornando-se um respeitado documentarista e professor.
Num momento em que Fife está velho e
bastante doente, dois de seus alunos convencem-no a dar uma longa entrevista, que será uma espécie de testamento para alguém que se tornou um símbolo de ativismo e resistência. Na entrevista, no entanto, Leonard assume uma atitude inesperada, despejando confissões pouco abonadoras sobre si mesmo e sua vida amorosa e pessoal - chocando sua mulher, Emma (Uma Thurman), também uma ex-aluna.
Num filme impregnado de arrependimento e morte, Jacob Elordi assume o papel do Leonard jovem, vivendo suas inúmeras aventuras sexuais, hesitações e abandono de mulheres e filhos. Desmonta-se, assim, a aura de herói de Leonard que o filme, a bem da verdade, nunca estabeleceu de fato - e talvez esta seja mesmo a ideia. Fife, afinal, torna-se um personagem amargo, com quem é difícil empatizar e cujos contornos, mais de uma vez, uma narrativa confusa dilui inapelavelmente.
Tanto quanto Francis Ford Coppola, no imensamente mais ambicioso e bem-realizado Megalopolis, Schrader, co-roteirista de Taxi Driver (1976) e diretor e roteirista de O Contador de Cartas (2021), tentou compor um réquiem para uma América que não existe mais, sem querer criar falsas ilusões sobre o que ficou para trás. Mas, de vários modos, o resultado é um tanto frustrante. Parece um filme datado, em forma e conteúdo.
No país de Jia Zhang ke
Em Caught by the Tides, o talentoso diretor chinês revisita a toda a sua obra e as preocupações nela reveladas, repassando 20 anos de história da China, mesclando sequências documentais e atuações de sua mulher e atriz-fetiche, Zhao Tao, e um pequeno elenco. É um filme lacônico, no sentido de que tem poucos diálogos, e aposta mais em sequências imagéticas que alternam texturas que traduzem cada época. À medida que o tempo passa, vão incorporando mais e mais aspectos high tech - uma cena impagável envolve uma interação entre Zhao Tao e um robô falante num supermercado.
O filme começa com imagens colhidas em 2001 para retratar uma China
em busca da modernização, em que as pessoas buscam novas formas de sobrevivência e a natureza é dominada para corresponder a esse grande esforço de progresso - como com a construção da imensa hidrelétrica das 3 Gargantas, referida por Jia em Em Busca da Vida (2007) e cujos deslocamentos, traumas e cicatrizes são retomados aqui.
Zhao Tao é, mais uma vez, Qiao, personagem recorrente em alguns filmes do marido, que percorre o país em busca de Guo Bin (Li Zhubin), um homem que desapareceu de sua vida e com quem ela quer acertar algumas contas.
Mas esse fio narrativo é bastante tênue, já que a aposta é mesmo na contemplação das imagens que o filme seleciona e organiza, de uma forma que poderá não agradar a muitos. E a sequência final, mostrando várias pessoas correndo sob a neve numa avenida, inclusive Zhao Tao, é de uma beleza incrível.
Homofobia na aldeia
Já o concorrente romeno Trei Kilometri pana la Cap?tul Lumii, de Emanuel Parvu, focalizou com contundência uma história de homofobia, localizada numa pequena cidade litorânea do país. O incidente que deflagra a trama ocorre quando um jovem, Adi (Ciprian Chiujdea), estudante que volta para a casa dos pais no verão, sofre um espancamento. A partir daí, seu pai, Dragoi (Bogdan Dumitrache), faz uma denúncia na polícia, dando ensejo para que o filme desnude uma realidade social corrompida.
Da investigação, resulta que o incidente teve uma motivação homofóbica, pois Adi teria sido visto beijando um turista que partiu naquela noite. Mas a agressão também envolve os filhos de um mafioso local, com quem Dragoi tem uma dívida pendente.
Acompanha-se os mínimos meandros de uma realidade que, em alguns momentos, parece medieval, não fosse o figurino dos personagens a nos lembrar que isso está se passando ainda nos dias de hoje.
Nesse sentido, são lapidares as conversas do policial (Valeriu Andriuta) com o mafioso, as atitudes de um padre (Adrian Titieni) e especialmente a intervenção de uma procuradora que chega quase no final, expondo as entranhas de uma mentalidade e um sistema intoleráveis. Por esse motivo, Trei Kilometri … torna-se uma pedrada na nossa cara.
Bastante conhecido como ator, estrelando filmes como Contos da Era Dourada e Bacalaureat, ambos dirigidos por Cristian Mungiu, Parvu mostra-se um diretor com fôlego e contundência dignos do cinema de seu país.
Relacionadas
Quatro mulheres em vertigem
- 22/05/2024
Duas alternativas brasileiras para o mundo
- 20/05/2024
Coppola sacode a Croisette com Megalopolis
- 16/05/2024
Cannes em noite de flerte com o Oscar
- 15/05/2024
O Brasil voltou à Croisette
- 12/05/2024
