23/07/2026

Cannes em noite de flerte com o Oscar

Cannes - A noite de abertura de Cannes teve tudo para se parecer com o Oscar - e houve um esforço nisso, já que se recorreu até a um número musical, a performance da cantora francesa Zaho de Sagazan, interpretando "Modern Love", de David Bowie, hit da trilha de Frances Ha, um dos filmes da presidenta do júri nesta 77ª edição, a atriz, roteirista e diretora norte-americana Greta Gerwig.
Greta, aliás, foi às lágrimas com a homenagem da cantora - um acontecimento inédito em se tratando de presidentes do júri, que costumam apenas ser apresentados no palco do Grand Théâtre Lumière sem toda essa pompa e circunstância.
A referência ao cinema norte-americano não parou aí, prosseguindo com a entrega da Palma de Ouro honorária a Meryl Streep, entregue por outra fina estrela da realeza das atrizes mundiais, a francesa Juliette Binoche, vestindo um esfuziante vestido vermelho que se confundia com o tapete da cerimônia.

A atriz francesa Camille Cotin, por sua vez, como mestra de cerimônias foi dinâmica e cativante, evocando em sua apresentação não só o cansaço da extenuante programação do festival como dando uma estocada a favor do movimento Moi Aussi (Me Too) - assunto quente por aqui. O destaque de tantas estrelas femininas na cerimônia de abertura, aliás, também pareceu uma espécie de compensação pelo fato de que apenas quatro dos 22 concorrentes à Palma de Ouro neste ano são mulheres. E as homenagens e a fala de Camille, afinal, foram, de longe, bem mais interessantes do que o filme que veio a seguir, Le Deuxième Acte, de Quentin Dupieux.

A maldição das aberturas

Cannes, aliás, está criando uma tradição negativa com seus mais recentes filmes de abertura - três anos seguidos de produções francesas fora de competição e que tiveram uma repercussão negativa e pouco futuro em circulação internacional.

Foi o caso de Coupez!, a desastrosa comédia de humor negro e terror de Michel Hazanavicius, em 2022;
o xaroposo drama de época Jeanne du Barry, de Maïwenn - cujo interesse, para o festival de 2023, parece ter sido atrair uma celebridade como Johnny Depp à Croisette; e, neste ano, de Le Deuxième Acte, de Quentin Dupieux e seu humor nem tanto peculiar quanto escasso mesmo, ainda que defendido por um elenco forte, integrado por Léa Seydoux, Vincent Lindon e Louis Garrel.

Não que haja falta de ideias inteligentes - como que o filme dentro do filme seja dirigido pela inteligência artificial e que os bastidores sejam mais importantes do que a trama - banal - em si. Mas não funciona nada a sátira pseudo-crítica à cafajestagem e à homofobia emitidas pelos personagens do filme, supostamente desmontadas quando fica claro que dois deles são um casal gay. Enfim, talvez seja o tipo de humor que funciona (será?) no planeta França - e humor, como se sabe, é o tipo do passageiro que muitas vezes não viaja bem. Cada país, ou região, tem o seu.

Enfim, Cannes está começando para valer hoje, nesta quarta-feira chuvosa, em que a temperatura baixou para os 15 graus, e em que começa a exibição dos filmes em competição e das mostras paralelas. Que venham mais e melhores atrações.