04/06/2026

A potência de Mohammad Rasoulof sacode e emociona Cannes

Cannes - Chegando na reta final do festival, o penúltimo concorrente à Palma de Ouro, o drama político iraniano
The seed of the Sacred fig, de Mohammad Rasoulof, finalmente sacudiu uma edição que parecia mais ou menos morna e sem unanimidades.
A sessão de gala do filme, nesta tarde de sexta (24), no Grand Théâtre Lumière, foi nada menos do que emocionante.
Rasoulof, que fugiu de seu país há dias, evadindo-se de uma condenação à prisão, chibatadas e confisco de propriedades por uma suposta conspiração contra o governo, compareceu ao tapete vermelho, que ele dividiu com outras celebridades exiladas do Irã, como a atriz Golshifteh Farahani (vista em filmes como Filhas do sol e A pedra da paciência).
Dentro da sala, Rasoulof foi intensamente aplaudido e, mais ainda, ao final da projeção, de quase três horas, combinada com uma ovação que superou todas as já vistas nesta edição.

O cineasta, que carregava as fotos de seus dois atores protagonistas (Missagh Zareh e Soheila Golestani) [foto acima]que não puderam sair do Irã, agradeceu, dizendo “não saber como reagir ao encorajamento” e também a Thierry Frémaux, diretor artístico de Cannes, e ao festival. Depois, disse: “Eu penso em todos aqueles que permitiram que esse filme fosse realizado, que estão aqui e também nos que foram impedidos de comparecer. Penso no meu diretor de fotografia, no meu sonoplasta, no meu diretor de arte, na figurinista. Eles são muito numerosos para que eu cite todos eles. De qualquer forma, agradeço a cada uma dessas pessoas que permitiram que esse filme exista, agradeço a vocês que assistiram a esse filme tão longo. Espero de todo meu coração que todo esse aparato de opressão e da ditadura desapareça em breve do Irã”.

Repressão em família

A força do filme está na contundência com que disseca a situação daquele país, abalado pelo crescimento da repressão às liberdades, o que é mostrado também em trechos documentais dos protestos no Irã contra o uso obrigatório do hijab e também a morte da jovem Mahsa Amini - que morreu sob custódia policial em 2022.
Ao centro da trama, está uma família. O pai, Amin (Missagh Zareh), acaba de ser promovido a juiz-investigador, o que leva a vislumbrar um futuro nos tribunais revolucionários. Sua mulher (Soheila Golestani) se anima com a possibilidade de subir na vida, assim como as duas filhas adolescentes (Setareh Malek e Mahsa Rostami). Mas o sonho de consumo vira rapidamente um pesadelo à medida que fica claro que a promoção de Amin o leva a um acelerado processo de cooptação. Ele é pressionado a indiciar e condenar - inclusive à morte - diversos dos ativistas que naquele momento estão nas ruas e com os quais sua filha mais velha tem afinidade. O impasse, na família e no país, está declarado.

Tanto como acontecia em Não há mal algum, que lhe deu o Urso de Ouro em Berlim em 2020, esse pântano ético vai sugando Amin e tornando-o um carrasco dentro do círculo familiar. As mulheres da casa, assim como as vistas na rua, resistem com os meios que têm nas mãos. E a sequência final, filmada num ambiente ermo, nas ruínas de uma grande construção, lembram um faroeste.
The seed of the sacred fig não procura aliviar nenhum aspecto, igualmente - por exemplo, ao denunciar a violência policial, traduzida numa cena angustiante, em que uma mulher retira chumbo fino do rosto de uma jovem agredida pelos policiais apenas porque participava de uma manifestação. A polícia iraniana usa espingardas de caça de chumbo fino contra os manifestantes, o que produz ferimentos profundos.

Feminismo minimalista

A jovem cineasta indiana Payal Kapadi, de 38 anos, já tem uma história no festival. Em 2021, ganhou o prêmio Golden Eye de melhor documentário com
A noite de não saber nada. Em 2017, seu curta Afternoon clouds, foi o único representante indiano em Cannes, na seção Cinéfondation.
Numa obra que se desenha com um toque feminista, ela retrata histórias de mulheres em All we imagine as light, concorrente à Palma de Ouro que gira em torno de três mulheres moradoras em Mumbai, todas migrantes de outros lugares. Duas são enfermeiras, Prabha (Kani Kusruti) e Anu (Divya Prabha) que dividem o aluguel de uma pequena casa. A outra, Parvaty (Chhaya Kadam), trabalha na cozinha do hospital.

Montando uma narrativa minimalista, a diretora começa o filme com um trecho documental, mostrando imagens das ruas da grande cidade indiana, permeadas pela narração em off de diversos personagens cujas histórias certamente têm muito em comum com a destas protagonistas.

Retrata-se a rotina destas mulheres, destacando os desejos e frustrações de cada uma. Prabha é casada, mas seu marido vive longe, na Alemanha, e há cerca de um ano não mantém qualquer contato. Ela mergulha no trabalho para esquecer este drama íntimo, com o qual se acomodou. A chegada de um presente desse homem pelo correio desencadeia nela uma espécie de crise - o que deve fazer com este casamento, que foi arranjado, especialmente neste momento em que um médico (Azees Negumangad) demonstra interesse por ela?

Sua colega Anu, bem mais jovem, vive o dilema de manter um namoro escondido com um jovem muçulmano (Hridu Haroun). O motivo do segredo é não só a diferença de religião, mas o fato de que seus pais estão na iminência de arrumar-lhe um marido - e ela não consegue encontrar forças para enfrentá-los e romper a tradição.

A viúva Parvaty, por sua vez, tem problemas de outra ordem: vive há 22 anos numa casa da qual não tem documentos, e está na iminência de um despejo, por mais que tente resistir contra isso.

Compondo uma espécie de sinfonia para estas três mulheres, Payal Kapadi traça um retrato inquietante da condição feminina na Índia, em que o peso dos costumes e tradições pesa violentamente sobretudo para estas personagens que vêm do interior, de pequenas vilas. O filme é extremamente lento e pode ser eventualmente dispersivo. Mas é certo que o semblante destas personagens, especialmente Prabha e Anu, ficam na nossa mente bem depois de encerrada a projeção.