17/07/2026

Em dia com o suspense e com a música

A segunda-feira (23) traz como novas atrações o policial australiano “Limbo”, de Ivan Sen, com destaque para o clima e uma bela fotografia em preto-e-branco; o drama erótico alemão “Um dia nossos segredos serão revelados”, de Emily Atef; e o documentário “Nada será como antes”, de Ana Rieper, resgatando a história do Clube da Esquina.

Estas são nossas principais dicas para esta segunda-feira (23):



Limbo
Dirigido por Ivan Sen, Limbo foi um dos representantes do filme noir na seleção competitiva do Festival de Berlim 2023. Filmado no interior australiano e com fotografia em preto-e-branco, o enredo constrói sobre uma trama policial no contexto de uma história de exploração e desigualdade dos nativos aborígenes.

Numa pequena localidade decadente, com um ambiente degradado pelos efeitos devastadores da mineração, chega um policial, Travis Hurley (Simon Baker), com a missão de procurar novos indícios sobre o desaparecimento de uma garota aborígine, 20 anos atrás, que ficou sem solução.

Os irmãos da garota, Charlie (Rob Collins) e Emma (Natasha Wanganeen), são naturalmente desconfiados e reticentes diante da investida repentina do policial branco. Charlie, anos atrás, chegou a ser preso como suspeito pelo desaparecimento da irmã. A investigação de Travis, no entanto, revela muito mais um país que trata muito mal suas populações originais, não-brancas, e a conivência da polícia com os crimes cometidos pelos brancos contra elas.

As maiores qualidades do filme residem na segurança com que constrói uma atmosfera, ganhando potência por ser enxuto e um pouco lacuna - o que obedece as melhores cartilhas do gênero noir. (Neusa Barbosa)

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1
23/10/23 - 17:45
RESERVA CULTURAL - SALA 2






29/10/23 - 21:20


Nada será como antes - A música do Clube da Esquina
O documentário de Ana Rieper ampara-se em imagens de arquivo e entrevistas para resgatar memórias da criação do famoso Clube da Esquina, um dos mais prolíficos fenômenos musicais da música popular brasileira dos últimos 50 anos.

Começa por uma imagem de Milton Nascimento entoando sua poética Travessia (1967), que ganhou um Festival Internacional da Canção e deu fama ao cantor e compositor e ao seu grupo - que inclui os irmãos Lô e Márcio Borges, Beto Guedes, Robertinho Silva, Wagner Tiso e outros amigos de parceiros da famosa Esquina.

A esquina, aliás, existe, e fica no bairro Santa Teresa, em Belo Horizonte, confluência das ruas Paraisópolis e Divinópolis, onde até hoje permanece uma pequena escada que serviu, décadas atrás, como ponto de encontro para os garotos mineiros. O termo “Clube da Esquina” foi uma espécie de piada já que, na época, eles não tinham dinheiro para ir a lugar algum, então, seu ponto de encontro era mesmo na rua.
Lô Borges lembra, com a energia que lhe é peculiar, como conheceu Milton Nascimento, na escada de um prédio onde os dois moravam e onde Milton tocava violão - um acaso que valeu a amizade que dura todos esses anos, pontuada de parcerias e episódios engraçados e comoventes.

No filme, vários dos músicos contam detalhes da história de tantas composições que se tornaram hinos de algumas gerações, como Trem Azul e outras; as influências colhidas para sua formação, junto aos Beatles, Genesis, Miles Davis e John Coltrane; o compartilhamento da militância no movimento estudantil; e os percalços para a gravação do álbum duplo Clube da Esquina, que se tornou um clássico. (Neusa Barbosa)

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA AUGUSTA SALA 1

23/10/23 - 21:20
CINESESC















28/10/23 - 14:00


Um dia nossos segredos serão revelados
Dirigido por Emily Atef,o drama erótico alemão, que competiu no mais recente Festival de Berlim,estende-se por mais de duas horas, numa narrativa arrastada e um tanto redundante, para tratar do romance fatídico entre Maria (Marlene Burow), uma garota de 19 anos, e o quarentão Henner (Felix Kramer), um homem retraído, estranho e eventualmente brutal. Acontece que Maria vive com uma família, os Brendel, e é a namorada oficial do filho deles, Johannes (Cedric Eich), sem que ninguém, evidentemente, saiba do romance secreto da garota.

Tudo isto acontece tendo como pano de fundo a reunificação da Alemanha, no verão de 1990, com todos os seus conflitos. A região em que moram os personagens pertencia à Alemanha Oriental e se ressente de um processo de assimilação sentido como excessivamente rápido.

A diretora investe muito em cenas quentes de erotismo entre Maria e Henner, destacando o aspecto animal de sua relação, mas que parece mais fetichista do que seria de se esperar, em se tratando de um filme dirigido por uma mulher. Por outro lado, deixa correr o ritmo do filme de maneira um tanto excessiva. Melhor seria que trabalhasse um pouco mais no aprofundamento dos personagens e na sua ligação com o contexto social da época, que fica um pouco perdido no meio do caminho. Mas, de todo modo, Marlene Burow é candidata a musa, muito linda, carismática e promissora. (Neusa Barbosa)

RESERVA CULTURAL - SALA 2













23/10/23 - 18:00
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA AUGUSTA SALA 1

25/10/23 - 13:30
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2

01/11/23 - 21:15

Na ponta dos dedos
A questão central que ronda este que é o primeiro filme em inglês do grego Christos Nikou é: seria possível medir racionalmente os sentimentos? Num momento futuro, na narrativa, desenvolveu-se uma máquina que calcula as porcentagens de amor que existe entre um casal. Para isso, precisa-se arrancar uma unha de cada um, colocar num recipiente, e o equipamento dá uma porcentagem. Os sonhados 100% significam que as duas partes do casal se amam sem restrições. Já 50%, por exemplo, significa que apenas um deles está apaixonado.

É uma premissa que poderia sair de um filme escrito por Charlie Kaufman, combinando bizarrice com uma trama doce e personagens um tanto peculiares. Jessie Buckley faz Anna, uma professora primária que acaba trabalhando numa clínica que não apenas faz o teste, como desenvolveu uma série de técnicas que aumentam a porcentagem de um casal, que deve fazer uma espécie de curso juntos para se conhecer melhor e se “apaixonar mais”.

Anna vive com seu namorado Ryan (Jeremy Allen White) com quem, no passado, marcou a pontuação máxima. São feitos um para o outro e são aparentemente felizes. Mas fica claro, por exemplo, que existem problemas no paraíso quando ela esconde do marido onde está trabalhando e diz que o novo emprego é numa escolha chique. Na clínica, seu supervisor é Amir (Riz Ahmed), por quem parece começar a ter sentimentos reais.

As consequências sociais são enormes diante dessa obsessão pelo perfeição amorosa. Restaurantes oferecem descontos para casais certificados, e até a história de Adão e Eva foi reescrita com final feliz. Ao falar desse tipo de amor cientificamente comprovado, Nikou entra na questão do presente: um mundo onde algoritmos não perdem a chance de nos sugerir pessoas com quem fazer amizades virtuais e produtos para comprar.

O sentimento real é aquele sem comprovação científica, que se convence de sua existência sem explicação racional e, nesse sentido, Anna se torna uma rebelde quando desconfia estar apaixonada (e, possivelmente, correspondida) por Amir. O longa trata de suas questões com carinho e interesse nas dinâmicas pessoais e sociais que afastam e aproximam as pessoas. Sem grande ambições estéticas, é um filme marcado pelo seu sentimentalismo sincero, e é isso que vale. (Alysson Oliveira)

RESERVA CULTURAL - SALA 1 23/10/23 - 13:30

RESERVA CULTURAL - SALA 2
25/10/23 - 15:45


Palimpsesto
A diretora finlandesa Hanna Västinsalo imagina aqui um processo médico capaz de reduzir a idade física das pessoas. Passando por um tratamento, que nunca é mostrado, os corpos dos personagens rejuvenescem, porém seus intelectos continuam os mesmos, mantendo o conhecimento e experiências acumuladas ao longo dos anos.

Duas pessoas de 80 anos, Tellu e Juhani, que não se conhecem, são as cobaias do experimento. Dividindo o mesmo quarto, eles se apresentam, mas não se dão bem logo de cara. Ele se ressente de estar longe da esposa moribunda, e ela é animada, divertida e faz piadas com tudo.

Conforme o filme avança, os atores são substituídos por outros mais jovens, mostrando que o processo está funcionando. Mas surgem dilemas emocionais e até morais diante da transformação. A filha de Tellu, por exemplo, não consegue lidar com o fato de ter um pai “mais jovem do que ela”.

O filme, no entanto, não está muito interessado em desenvolver a dupla enquanto personagens. Eles existem apenas com a função de rejuvenescer sem muitos conflitos internos, afinal, para eles isso soa como um prêmio. Västinsalo, que teve o projeto financiado pelo Festival de Veneza, está mais interessada nas dinâmicas de afeto e menos nas dinâmicas sociais – o que empobrece um tanto o filme, que poderia explorar melhor o que significa envelhecer e mesmo rejuvenescer, numa sociedade tão etarista como a contemporânea. (Alysson Oliveira)

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2

23/10/23 - 19:30
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 5

30/10/23 - 14:00

E aqui, novas chances de conferir alguns dos principais destaques do fim de semana:



Afire
Vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Berlim 2023, o veterano diretor alemão Christian Petzold inova aqui numa história com muitos tons e camadas em torno de um quarteto de personagens. Mais uma vez, ele escala a magnética Paula Beer (protagonista de Undine), como Nadja, uma personagem inusitada, cheia de erotismo e energia, que divide uma casa de praia com dois homens, Felix (Langston Uibel), filho da dona da casa, e seu amigo, Leon (Thomas Schubert).

A ideia é que Felix complete seu portfólio para concorrer a uma vaga numa escola de arte e Leon, um escritor, consiga levar adiante seu segundo livro. Mas, desde a viagem, obstáculos se acumulam no caminho. O carro dos dois quebra e eles têm que dividir a casa com essa mulher desconhecida, cuja presença não era esperada. Hábil roteirista, Petzold explora as expectativas frustradas especialmente de Leon, que tudo observa mas é o que menos tem coragem de seguir os próprios impulsos.

Enquanto isso, outros elementos entram no ambiente, como a ameaça de incêndios florestais na região e a presença de um salva-vidas, Devid (Enno Trebs), que aumenta a temperatura erótica entre o quarteto.

Uma das grandes qualidades do diretor e roteirista alemão é conseguir atingir notas diferentes numa mesma narrativa, alternando drama e comédia de uma forma bastante rica e equilibrada, inclusive com a chegada de outros personagens na trama. Por isso, seu filme fala de muitas coisas e emana tantos sentimentos, abrindo uma perspectiva coral que o torna tão aberto a interpretações. (Neusa Barbosa)

KINOPLEX ITAIM SALA 2












23/10/23 - 17:20
CINEMATECA ESPAÇO PETROBRÁS





28/10/23 - 19:00
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA BOURBON POMPÉIA
01/11/23

Faculdade de Artes 1994
Concorrente na última edição do Festival de Berlim, esta animação adultaé assinada por um veterano do gênero na China, Liu Jian, que já havia competido em Berlim em 2017 com outra obra do gênero, Hao ji le (Have a Nice Day) - que partiu do festival alemão, onde teve sua première, para 50 outros festivais. Além da técnica, muito realista, o novo filme baseia-se um roteiro, assinado pelo diretor ao lado de Lin Shan, que ambiciona traçar o retrato de uma geração.

Ambientado nos anos 1990 numa escola de arte do sul da China, o enredo acompanha os dilemas de um grupo de jovens alunos, confrontados com suas escolhas de vida, seus amores e também pela entrada massiva de influências da arte ocidental. É muito curioso, para um público ocidental, observar como esses jovens encaram artistas como Beethoven, Debussy e falam de Picasso e Matisse, sendo enraizados numa realidade tão diferente da europeia. Mas esse, afinal, é o ponto-chave.

Uma curiosidade é a voz do premiado cineasta chinês Jia Zhang-ke, emprestada a um artista que estudou na escola do filme e que volta do Ocidente para dar seu depoimento aos alunos anos depois. Sem dúvida, o choque entre culturas e a possibilidade de trocas entre o Oriente e o Ocidente estão em primeiro plano na
história. (Neusa Barbosa)

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA AUGUSTA SALA 2

23/10/23 - 13:30
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2
30/10/23 - 15:30
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA AUGUSTA SALA 1

01/11/23 - 15:30

Folhas de Outono
Vencedor do Prêmio do Júri em Cannes 2023, o novo filme do finlandês Aki Kaurismaki reafirma sua fé minimalista para desenvolver um romance difícil entre dois trabalhadores melancólicos (Alma Pöysti e Jussi Vatanen). Perdidos em Helsinque, entre as incertezas de seus empregos precários e do alcoolismo dele, os dois são uma espécie de retrato de uma contemporaneidade que não dá espaço para expressão de sentimentos nem utopias. Ambos parecem mover-se na vida assim como os zumbis de um filme que vão assistir no cinema um dia.

As referências cinematográficas, aliás, são muitas, desde as menções explícitas a Bresson e Godard - justamente numa comparação irônica com o filme de zumbis -, quanto nos muitos cartazes mostrados nas paredes, até mesmo num bar. Até o cachorrinho que a moça adota se chama Chaplin - e o toque de doçura final da história pode ser mesmo chamado de uma homenagem ao genial vagabundo.

Kaurismaki afirma-se, neste novo título, como um legítimo herdeiro da concisão dramática de Chaplin, com seus personagens quase mudos, inarticulados, carregados por uma vida que, se não é propriamente pobre, está no limite da sobrevivência. Nesse contexto, até as emoções parecem um luxo, mas o diretor extrai a humanidade de seus anti-heróis com a delicadeza discreta que lhe é peculiar. (Neusa Barbosa)

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2
23/10/23 - 13:30
CINEMATECA ESPAÇO PETROBRÁS





24/10/23 - 21:00
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA AUGUSTA SALA 1

29/10/23 - 17:15

Não espere muito do fim do mundo
O humor corrosivo do cineasta romeno Radu Jude é conhecido dos admiradores, que seguem o rastro de filmes exibidos no Brasil, caso de Aferim! (2015), Eu não me importo se passarmos à História como bárbaros (2018) e Má Sorte no Sexo ou Pornô Acidental (2021) - este lançado nos cinemas.

Sua ironia ácida e sem sutilezas para o politicamente correto tempera suas crônicas sobre seu país, marcadamente políticas e pintando um retrato nuançado de inúmeras doenças sociais contemporâneas, não exclusivas da Romênia, aliás.

Sua protagonista aqui é a jovem Angela (Ilinca Manolache), uma assistente de produção sobrecarregada de trabalho, levando uma vida precária e estressante, na maior parte do tempo dirigindo seu carro no trânsito infernal de Bucareste - cujos motoristas, inclusive ela, disparam impropérios um contra o outro com uma velocidade muito superior ao desempenho de seus carros.

Vivida com muita energia pela atriz, Angela torna-se facilmente um protótipo de mulher dos dias de hoje, espremida num mundo do trabalho insensível, subordinado aos interesses de vizinhos mais ricos da Romênia - e a definição do país como uma espécie de primo pobre dentro da União Europeia é, mais uma vez, lembrada por aqui, a partir do detalhe de que o atual trabalho de Angela é um projeto de filme institucional para produtores austríacos. Para relaxar, Angela cria para si mesma um alterego no Tiktok, recorrendo a um filtro que a transforma em Babita - um protótipo de macho devasso e desbocado que se torna uma caricatura cruel de toda a extrema desumanidade a que ela é submetida.

Às imagens em preto-e-branco desta Angela moderna, o diretor contrapõe imagens coloridas de trechos de um filme romeno de 1981, Angela Goes On (Angela Merge Mai Departe), de Lucian Bratu, que focaliza uma outra mulher perdida no trânsito, a motorista de táxi vivida pela atriz Dorina Lazar. Correndo em paralelo, a trajetória destas duas Angelas em busca de sobrevivência atrás de um volante, sofrendo ofensas machistas e procurando brechas para alguma vida pessoal, encontra seu sentido num momento do filme - quando a própria Dorina Lazar, hoje uma velha senhora, integra o elenco, vivendo a mãe de um dos personagens entrevistados para o projeto pesquisado pela jovem.

Que o tema deste projeto seja uma campanha de segurança no trabalho a partir de depoimentos de trabalhadores acidentados é mais uma ironia perspicaz do enredo, que não perde uma oportunidade de expor as inúmeras contradições do capitalismo selvagem que substituiu a ditadura comunista de Nicolau Ceausescu, derrubado e morto em 1989. Por isso, o universo corporativo, representado pelos austríacos, tendo à frente Doris Goethe (a atriz alemã Nina Hoss), é também impiedosamente dissecado em sua hipocrisia cruel e esnobe.

Nem por isso Jude pretende apresentar os romenos como meras vítimas de sua própria exploração. Em muitos diálogos, deixa bem claro que a Romênia também está sendo cúmplice de sua própria aniquilação - e ele, como todo seu humor, não parece muito otimista, ainda que prefira falar de tudo isso com um sorriso cínico no canto do rosto.
(Neusa Barbosa)


ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA AUGUSTA SALA 1

23/10/23 - 15:10
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2
28/10/23 - 13:30
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1
30/10/23 - 20:30