Uma Mostra do tamanho do mundo
- Por Neusa Barbosa
- 17/10/2023
- Tempo de leitura 7 minutos
Voltando a incluir mais de 300 filmes na programação, a 47ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo promete uma edição com muito vigor e renovação, ocupando 24 salas na cidade a partir de 19 de outubro.

Como sempre colhendo parte substancial de suas atrações em alguns dos principais festivais internacionais, a Mostra dá a largada na quarta (18/10), na Cinemateca Brasileira, com uma sessão para convidados do grande vencedor da Palma de Ouro em Cannes, Anatomia de uma Queda (foto ao ladao), de Justine Triet. Policial psicológico, o filme acompanha a dúbia jornada de uma escritora (Sandra Hüller), acusada da morte do marido depois que este cai de uma janela em sua casa - um drama seguido com angústia pelo filho do casal (Milo Machado Graner), um menino de 12 anos, que é deficiente visual.

Também de Cannes 2023, serão exibidos o magnífico drama turco Ervas Secas (foto ao lado), de Nuri Bilge Ceylan, que arrebatou o prêmio de melhor atriz para Merve Dizdar; o romance dramático finlandês Folhas de Outono, de Aki Kaurismaki, ambos representantes de seus respectivos países na disputa e uma indicação ao Oscar de filme estrangeiro (na seleção da Mostra, são no total 15 títulos neste páreo); a premiada produção britânico/polonesa Zona de Interesse, de Jonathan Glazer, um olhar original sobre o nazismo, premiado com o Grande Prêmio do Júri; o documentário chinês Juventude (Primavera), de Wang Bing, que retrata os percalços da vida de jovens trabalhadores itinerantes da indústria de confecção de seu país; o drama italiano La Chimera, de Alice Rohrwacher, que tem ao centro a ligação entre um inglês desgarrado e que vive da venda de objetos arqueológicos roubados (Josh O’Connor) e uma imigrante ilegal (a brasileira Carol Duarte, de A Vida Invisível); a premiada coprodução Brasil/Portugal A Flor do Buriti, em que mais uma vez os diretores João Salaviza e Renée Nader Medora retratam o universo do povo Krahô - como em Chuva é Cantoria na Terra dos Mortos (2019); e o documentário do alemão Wim Wenders, Anselm 3D, sobre o artista Anselm Kiefer.

Berlim
De Berlim, virão o grande vencedor do Urso de Ouro, o sensível documentário francês No Adamant (foto ao lado), de Nicolas Philibert, retratando uma unidade não-convencional de atendimento psiquiátrico que funciona à beira do rio Sena, em Paris; a vencedora do Grande Prêmio do Júri, a comédia dramática Afire, em que o veterano Christian Petzold cria uma história com muitos tons e camadas em torno de um quarteto de personagens, tendo como protagonista a magnética Paula Beer (Undine); a animação chinesa Art College 1994, de Liu Jian; o drama biográfico Ingeborg Bachmann - Journey into the Desert, da veterana alemã Margarethe von Trotta, em que a escritora austríaca é interpretada por Vicky Krieps; o drama alemão Someday we’ll tell each other everything, em que a diretora Emily Atef trata do romance fatídico entre Maria (Marlene Burow), uma garota de 19 anos, e o quarentão Henner (Felix Kramer), um homem retraído, estranho e eventualmente brutal; The Survival of Kindness, do veterano holandês Rolf De Heer, uma alegoria sem diálogos mas imagens muito expressivas em torno da jornada de uma mulher negra e aprisionada (Mwajemi Hussein); a comédia dramática chinesa The Shadowless Tower, do veterano Zhang Lu, retratando as aventuras e desventuras de personagens contemporâneos de Pequim; e o filme de abertura do festival, She Came to Me, de Rebecca Miller, uma comédia romântica que ironiza o romantismo, com Peter Dinklage, Anne Hathaway e Marisa Tomei.

Veneza e Locarno
De Veneza, estão programados o vencedor do Grande Prêmio do Júri, O Mal Não Existe
(foto ao lado), do japonês Ryusuke Hamaguchi (Drive my Car); Paraíso em Chamas, de Mika Gustafsson, vencedor da mostra Horizontes; e Vampira Humanista Procura Suicida Voluntário, de Ariane Louis-Seize, vencedor da mostra Jornada dos Autores.
(foto ao lado), do japonês Ryusuke Hamaguchi (Drive my Car); Paraíso em Chamas, de Mika Gustafsson, vencedor da mostra Horizontes; e Vampira Humanista Procura Suicida Voluntário, de Ariane Louis-Seize, vencedor da mostra Jornada dos Autores.
De Locarno, virão o grande vencedor do Leopardo de Ouro de melhor filme, Zona Crítica, de Ali Ahmadzadeh; Não Espere Muito do Fim do Mundo, do romeno Radu Jude, ganhador do Prêmio Especial do Júri; e Sonhando e Morrendo, de Nelson Yeo, vencedor do prêmio de melhor primeiro filme e também do Leopardo de Ouro da mostra Cineastas do Presente.
A hora dos novatos
Como é tradição, a Mostra terá uma competição de Novos Diretores, em que já é possível marcar o interesse por alguns títulos. Caso do documentário vindo de Sundance, o ucraniano 20 Days in Mariupol, de Msystlav Chernov, que representa o país na disputa de uma indicação ao Oscar; O Espectro do Boko Haram, de Cyrielle Raingou, vencedor do Tigre de melhor filme no Festival de Roterdã e que retrata os dilemas causados na vida de crianças e jovens do Camarões pela ação do grupo terrorista Boko Haram; e também o documentário iraniano Sete Invernos em Teerã, de Steffi Niederzoll, que resgata a história de uma jovem que matou um estuprador em legítima defesa e sua história teve desdobramentos inusitados.
Clássicos e restaurados
Para quem admira o cinema clássico, não faltarão atrações na programação, começando pela retrospectiva de 23 filmes do mestre italiano Michelangelo Antonioni, cujo desenho ilustra as artes do festival este ano. De Blow Up à trilogia A Aventura, A Noite e Eclipse, passando por Zabriskie Point, Deserto Vermelho e o documentário Gente do Pó, haverá muito a ver e rever.
De quebra, haverá a leitura de um roteiro deixado inédito pelo diretor, Tecnicamente Doce, que será filmado numa coprodução Brasil/Itália por André Ristum. Uma exposição com 24 pinturas de Antonioni será exibida no Instituto Italiano de Cultura.
As Apresentações Especiais reúnem: 25, filme de José Celso Martinez Corrêa e Celso Luccas feito em Moçambique e exibido na 1a. Mostra (1977), quando os diretores estavam exilados pela ditadura militar; Um Homem com uma Câmera, de Dziga Vertov, apresentado com uma nova trilha musical, de autoria de Luís Henrique Xavier; os restaurados Vale Abrão, de Manoel de Oliveira; Underground - Mentiras de Guerra, de Emir Kusturica (que virá a S. Paulo como jurado); Corisco & Dadá, de Rosemberg Cariry; O Sangue, de Pedro Costa; Amor Louco, de Jacques Rivette; e Retorno à Razão, de Man Ray.
Homenagens
Dois documentaristas serão distinguidos com o Prêmio Humanidade, voltado a quem dedica sua obra a causas humanistas: o francês Sylvain George e o norte-americano Errol Morris. De George, serão exibidos todos os seus sete filmes, incluindo-se o mais recente, Noite Obscura - Adeus, aqui, em qualquer lugar, que recebeu uma menção honrosa em Locarno. De Morris, igualmente, se mostrará o título mais recente, O túnel dos pombos, que focaliza o ex-espião e famoso escritor britânico John Le Carré.
Locais
A Mostra terá sessões presenciais em 24 salas da cidade, incluindo programação gratuita em quatro CEUs, e um espaço temporário, construído nas dependências da Cinemateca Brasileira pela Petrobras, que abrigará filmes e apresentações musicais.
Parte da programação será exibida online, pelas plataformas Itaú Cultural Play, Sesc Digital e SpCine Play.
Confira os detalhes no site da Mostra.
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