17/07/2026

No embalo da literatura e outras artes

A quarta-feira está cheia de atrações muito densas e criativas. Confira algumas sugestões:


Ervas Secas
Habituê do Festival de Cannes, onde já venceu um Grande Prêmio do Júri (em 2011, por Era uma vez na Anatólia), e dono de uma obra autoral sólida, o veterano cineasta turco Nuri Bilge Ceylan desdobra, em Ervas Secas o ocaso da vida de três professores no interior da Turquia.

Por volta dos 40 anos, os dois amigos Samet (Denis Celiloglu) e Kenan (Musab Ekici) e a moça Nuray (Merve Dizdar, prêmio de melhor atriz em Cannes) experimentam o vazio da vida interiorana, sonhando com uma transferência para Istambul, uma vida diferente. Samet é o mais cético, Kenan, o pragmático, e Nuray, uma mulher que vem de um passado mais independente mas sofre as limitações de ter sofrido um acidente que lhe causou uma deficiência.

Com seus longos diálogos circulares, como toda a obra de Ceylan, Ervas Secas discute profundamente a vida, não só na Turquia, inclusive tocando na política de uma maneira mais direta do que seus filmes anteriores. É o tipo de filme para rever e se apoderar das contradições destes personagens, em cuja história se mescla uma suspeita levantada por uma pequena aluna contra um professor - um episódio que ameaça causar a ele inúmeras consequências. (Neusa Barbosa)

RESERVA CULTURAL - SALA 1






25/10/23 - 20:15
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA AUGUSTA SALA 1

27/10/23 - 13:30
CINESESC















29/10/23 - 16:00
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2
01/11/23 - 17:40

Ingeborg Bachmann - Jornada pelo Deserto
A veterana diretora e roteirista alemã Margarethe von Trotta exerce mais uma vez seu gosto pela cinebiografia de mulheres notáveis - como fizera em Hannah Arendt (2012) e Rosa Luxemburgo (1986) - e repete seu estilo clássico e consistente filme em torno da poeta e escritora austríaca (1926-1973).

Interpretada pela talentosa atriz luxemburguesa Vicky Krieps (de Corsage), Ingeborg ganha vida, brilho e beleza num filme que procura trazer à tona vários textos literários mas centra-se mais no período em que a escritora envolveu-se numa relação complicada com outro escritor, Max Frisch (Ronald Zehrfeld), em 1958.

A maneira como Ingeborg se define em relação a esse homem intenso e possessivo dá uma das chaves de uma personalidade vibrante, independente e extremamente sensível, o que a torna suscetível a grandes mágoas - especialmente quando ela descobre que Frisch mantém um diário com largas descrições dela, como se fosse uma das personagens de suas peças teatrais.

Atriz de muitos recursos e nuances, Vicky Krieps mantém o interesse em sua personagem, composta com muita solidez, encanto e fragilidade, num filme de época de produção bastante bem-cuidada, em termos de figurinos e cenários.

Um contraponto à existência levada por Ingeborg e Frisch entre quatro paredes, seja em sua casa, em Zurique, seja nos salões literários que ambos frequentavam com muito sucesso, é a viagem feita pela escritora ao deserto, no Egito, juntamente com um jovem admirador, Adolf Opel (Tobias Samuel Resch), onde Ingeborg dá vazão a algumas de suas paixões, sem preconceitos. Essa mulher que adorava o sol, apesar de austríaca, preferiu adotar como sua casa a cidade de Roma, onde ela não parava de encontrar encantos e cujos habitantes, para ela, eram mais acolhedores e capazes de compreendê-la.

É sempre muito difícil trazer para a tela personalidades literárias, porque os textos, ouvidos assim rapidamente num filme, não têm como atingir a mesma densidade de uma leitura atenta. De toda forma, Vicky Krieps realiza mais uma composição bem-sucedida. (Neusa Barbosa)

RESERVA CULTURAL - SALA 1






25/10/23 - 17:55
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA AUGUSTA SALA 2

26/10/23 - 13:30
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1
30/10/23 - 14:00
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA AUGUSTA SALA 1

01/11/23 - 17:40

Comandante
O filme de abertura do Festival de Veneza 2023 resgata uma história real ocorrida durante a II Guerra, em pleno fascismo. O comandante do submarino italiano Cappellini, Salvatore Todaro (Pierfrancesco Favino), percorria o Atlântico em missão, em 1940, quando vislumbrou um navio de bandeira belga. A Bélgica, naquela altura, era neutra na guerra. Mas a circulação do navio naquelas águas era, por si, suspeita, então o comandante mandou bombardeá-lo. O navio afundou, mas diversos tripulantes se salvaram em dois botes precários. Contrariando as leis da impiedade da guerra e seguindo os preceitos básicos dos marinheiros, Todaro decidiu salvar a vida de 26 tripulantes estrangeiros, apesar da probabilidade de estarem em missão secreta a favor dos ingleses.

Com uma reconstituição de época cuidadosa e cenas de batalha convincentes, o filme de Edoardo De Angelis recria com muita eficiência o clima da guerra e a sensação de claustrofobia, confinamento e, finalmente, de superlotação a bordo do submarino. Tem-se o cuidado, também, de definir com maior detalhamento vários dos personagens das duas tripulações, como o cozinheiro napolitano Gigino (Giuseppe Brunetti) - que é uma figura essencial nesse ambiente para manter o moral e um pouco de humor, especialmente quando a comida começa a escassear.

O perfil do comandante, como era de se esperar, é o mais explorado - e este homem singular é cheio de nuances. Tendo sofrido um acidente anterior, tem sérios problemas na coluna, que o obrigam a tomar medicamentos contra a dor, inclusive, eventualmente, morfina. Acredita-se que ele tem algum poder paranormal, o que contribui para que tenha ainda maior ascendência sobre seus comandados - e o diretor explora também esse aspecto com sutileza.

Realizado com a cooperação da Marinha Italiana, o filme deixa no ar uma dúvida: será que ele contribui para uma certa normalização do fascismo, deixado em segundo plano para ressaltar as qualidades deste comandante, sem dúvida valoroso e ousado em sua decisão de salvar potenciais inimigos? O desafio do diretor, no entanto, é procurar captar o centro da contradição que envolve Todaro, cujo comportamento deixa perplexos os belgas, sendo seu porta-voz o tenente Reclerq (Johannes Wirix), que fala italiano. De todo modo, um pensamento inevitável é comparar a atitude generosa do comandante fascista em tempos de guerra com a impiedade com que são tratados, tantas vezes, inclusive na Itália, os refugiados amontoados em barcos precários no mar, não raro abandonados para morrer sem socorro. (Neusa Barbosa)

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1
25/10/23 - 18:10
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA AUGUSTA SALA 1

29/10/23 - 18:50



La Chimera
A atriz brasileira Carol Duarte - intérprete de A Vida Invisível, de Karim Aïnouz, grande vencedor do Un Certain Regard há 4 anos atrás - é um destaque no elenco de La Chimera, falando italiano e no papel de Itália, uma jovem mãe solteira, que esconde suas duas crianças numa grande casa, onde trabalha como empregada e aluna de canto de uma senhora excêntrica (Isabella Rossellini).

A história segue o estilo de realismo fantástico que a diretora italiana consagrou em obras anteriores, como Feliz como Lázaro (2018) e As Maravilhas (2014), desenvolvendo um relato em torno de um inglês, Arthur (Josh O’Connor), fascinado por arqueologia e que acaba obtendo seu sustento do roubo e da venda de objetos tirados das tumbas etruscas abandonadas que são comuns na região onde ele vive.

La Chimera destaca-se por uma narrativa original, pontuada por música em torno destes seres perdidos que são Arthur, Itália e seus amigos, e que tem, como sempre, uma participação especial da irmã da diretora, Alba Rohrwacher. (Neusa Barbosa)

CINESESC















25/10/23 - 20:45
INSTITUTO MOREIRA SALLES - PAULISTA

28/10/23 - 14:00
KINOPLEX ITAIM SALA 2








29/10/23 - 21:00
RESERVA CULTURAL - SALA 2






01/11/23 - 13:30

Ricardo e a Pintura
O veterano diretor franco-iraniano Barbet Schroeder constrói aqui um documentário em homenagem ao seu amigo de 40 anos, o pintor argentino radicado na França Ricardo Cavallo. Acompanhando este homem velho (69 anos) mas ágil como um menino em suas jornadas diárias para pintar dentro de uma gruta encravada nas rochas, bem perto do mar, o diretor começa a desenvolver a personalidade e os percursos de uma figura humana e artística admirável.

Evidentemente, é um filme que interessa mais àqueles que amam a pintura, atividade sobre a qual Cavallo é capaz de discorrer com uma fluência e entusiasmo extraordinários, declarando sua paixão especialmente por Diego Velásquez, com afirmações que nos levam a redescobrir aspectos da pintura do mestre espanhol.

Retratando Ricardo em seu cotidiano frugal, numa casa entulhada de objetos e telas ou preparando suas refeições sempre integradas pelo arroz que é seu elemento básico, o diretor nos coloca dentro de uma intimidade que desvela um artista e um ser humano que vale muito a pena conhecer. Suas pinturas, aliás, também são extraordinárias. (Neusa Barbosa).

KINOPLEX ITAIM SALA 2








25/10/23 - 14:00 (ÚLTIMA SESSÃO)

A Besta
Como é comum na obra do francês Bertrand Bonello, este é um filme do tipo “ame ou odeie”. Ou se compra a ideia como um todo, pelo preço a que ela se vende, ou deixa para lá. Aqui, ele parte da novela A Fera na selva, de Henry James, de 1903, e cria uma narrativa que viaja no tempo e no espaço, meditando sobre as oportunidades perdidas e também sobre o estado dos afetos no nosso presente a partir de olhares para o passado e o futuro.

Com fotografia de Josée Deshaies, o filme tem uma estranha beleza visual, e se insere numa discussão tremendamente contemporânea: a tecnologia tomando forma humana, AI sendo capaz de ter sentimentos e os ditar aos humanos. O texto original de James tem como protagonista um homem tão neurótico sobre a ideia de que algo ruim poderá acontecer que isso o paralisa, o impede de seguir com suas intenções e, provavelmente, lhe retira a oportunidade de viver o grande amor de sua vida. Para ele, há uma fera escondida na selva, pronta para o atacar.

Aqui, Bonello muda o gênero do protagonista, sendo interpretada por Léa Seydoux vivendo uma história de amor desencontrada desde 1910, numa Paris inundada da Belle Époque, até 2044. A outra metade do casal é o inglês George MacKay. Gabrielle e Louis se encontram e se perdem ao longo do tempo.

O filme parece muito mais do universo da ficção científica de, digamos, Aldous Huxley e J.G. Ballard do que James, mas a essência da dinâmica social que pauta os sentimentos também é bem próxima do original. No tempo futuro, Gabrielle se submete a uma terapia capaz de alterar o DNA e deixar as pessoas sem qualquer sentimento. Por acaso, encontra Louis, também, pronto a passar pelo tratamento. Eles têm dúvidas sobre a eficiência ou se devem mesmo passar por isso.

Essa terapia a faz viajar em existências passadas – ou talvez paralelas. Em 2014, é uma atriz e modelo, cujos dotes dramáticos são menos importantes do que sua beleza. O rapaz é uma espécie de influencer incell. No passado mais remoto, durante a Grande Cheia do Sena (o que resulta em belas imagens da Paris inundada), Gabrielle é uma exímia pianista, às voltas com o modernismo de Schönberg, que encontra Louis, um admirador que conheceu no passado e com quem falou sobre a fera na selva.

Tudo isso não se dá de forma organizada ou cronológica. Bonello cria um belo balé no tempo e espaço entre a dupla de personagens com ecos e reverberações de ações. Há ainda os estranhos elementos que atravessam o tempo, e um deles são bonecas. O marido da Gabrielle de 1910 é dono de uma fábrica de bonecas - e o olhar vazio dos brinquedos são assustadores e também um índice de nossa própria existência. No futuro, durante a terapia, a protagonista é assistida pela Poupée Kelly (Guslagie Malanda), um ser de estranha beleza que causa fascinação.

Bonello junta tudo, levanta diversos temas e talvez nem sempre dê conta de tudo – são questões demais. Mas isso nem importa, na verdade. O que, ao fim, A Besta parece dizer é sobre encarar e aceitar os sentimento, mesmo os do passado, os traumas que também nos constituem tanto quanto – ou, possivelmente, mais – que as alegrias. E nossos erros e acertos serão perenes no mundo – não apenas para nós. Tudo dura para sempre, como bem lembra a música Evergreen, na voz de Roy Orbinson, que atravessa o filme. (Alysson Oliveira)

CINEMATECA ESPAÇO PETROBRÁS
25/10/23 - 21:00
RESERVA CULTURAL - SALA 2
26/10/23 - 13:30
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA BOURBON POMPÉIA
30/10/23 - 20:50

Bons sonhos
Em seu segundo longa, a diretora bósnio-holandesa Ena Sendijarevic (Me leve para algum lugar legal) mostra um impressionante domínio da técnica, além das acertadas escolhas estéticas - a começar pela janela acadêmica que enclausura um mundo do passado, da experiência colonial holandesa nas Índias, na virada do século XIX para o XX.


A natureza selvagem das Índias Ocidentais foi tomada pelas plantações de açúcar, nos arredores de uma mansão fantasmagórica, habitada por Agathe (Renée Soutendijk, premiada em Locarno) e seu marido, Jan (Hans Dagelet). A morte dele, no entanto, altera o equilíbrio existente no local. Ele é pai do filho da empregada da família, Siti (Hayati Azis, excelente no papel), o pequeno Karel (Rio Den Haas).

Quando Jan morre, Agathe manda vir da Holanda seu filho Cornelius (Florian Myjer) e a sua esposa grávida, Josefien (Lisa Zweerman), para que ele assuma a fábrica de açúcar da família. Mas, para a surpresa de todos, Jan fez de Karel seu herdeiro – um irmão que Cornelius nem sabia existir. Nesse mundo quente, cheio de insetos e “incivilizado”,
a família holandesa rica mostra sua real face.

O domínio formal de Sendijarevic é impressionante, na composição das simetrias e na estética – a fotografia de Emo Weemhoff é de estranha beleza. Retratando um mundo tão plasticamente belo, a diretora desnuda os horrores do projeto colonial, uma vez que, quando o verniz se quebra, o que sobra é a exploração, a opressão e a violência. Bons sonhos é um filme claustrofóbico que parece mostrar em seu visual a secura do ar e os insetos que consomem as personagens. (Alysson Oliveira)

CIRCUITO SPCINE LIMA BARRETO - CCSP





25/10/23 - 15:00 (ÚLTIMA SESSÃO)

Robot Dreams
Vencedor do Festival de Annecy, especializado em animações, Robot Dreams é uma fábula melancólica sobre o desejo de conexão entre as pessoas – ou entre um cachorro antropomorfizado e seu robô de estimação. Dirigido pelo espanhol Pablo Berger, o filme parte da HQ homônima da americana Sara Varon e conta a história sem qualquer diálogo.

Embora não haja menção explícita do tempo, a trama claramente se passa na Nova York dos anos de 1980, habitada por animais com características humanas, como o cachorro chamado Dog. Ele vive sua vida matando tempo com videogame, mas sente-se solitário, até comprar um robô, que se torna seu melhor amigo.

Eles fazem tudo juntos, até ganham certa fama ao dançar “September”, do Earth, Wind & Fire, no Central Park. Até que, após um dia na praia, Robô não consegue mais se mover. Uma série de complicações fazem com que ele passe o inverno todo deitado na areia, com direito a sonhos que transformariam seu destino.

Os caminhos que a narrativa toma são inusitados e inesperados, e bastante melancólicos. Esse é um filme sobre o poder da amizade, mas também sobre os sacrifícios necessários em nome de preservar as pessoas que amamos. As escolhas do Robô e do Dog acabam sendo em nome de preservar a integridade de todos.

Berger segue de maneira próxima a HQ de Varon, até mesmo nas escolhas estéticas, com desenhos com cores sólidas e traços até simples, mas vivendo numa Nova York bastante povoada pelos mais diversos tipos, com sua gama de histórias, as quais o filme observa com carinho. (Alysson Oliveira)

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA AUGUSTA SALA 1


25/10/23 - 18:30
RESERVA CULTURAL - SALA 2
28/10/23 - 13:30
CINESESC
29/10/23 - 14:00