04/06/2026

Wim Wenders insere nota minimalista na competição de Cannes


Cannes -
Wim Wenders é o tipo do diretor que não precisa mais provar nada a ninguém há muito tempo e pode dar-se ao luxo de assinar um filme minimalista como Perfect Days, com que concorre à Palma de Ouro, com muitas chances de premiação sobretudo para seu protagonista, o veterano ator Koji Yakucho - cuja voz não se ouve por praticamente metade do filme.

Filmado no Japão e falado em japonês, Perfect Days (que evoca a famosa canção de Lou Reed) acompanha a jornada de Hirayama (Yakucho), um homem solitário que limpa banheiros públicos em Tóquio. A aparência clean e high tech destes banheiros contrasta com o próprio apartamento de Hirayama, uma pessoa totalmente analógica, que tira fotos com uma máquina de filme de rolo, compra livros em sebos e coleciona fitas cassetes, que ouve no carro, com conhecidos sucessos de décadas passadas, a trilha sonora da sua e de muitas vidas.

Em metade do filme, não se ouve a voz deste homem, entretido nas minúcias de seu trabalho exaustivo, que responde com grunhidos às perguntas de seu jovem colega de trabalho e se mostra atento e compassivo em situações que lhe ocorrem pelo caminho - como ajudar crianças perdidas das mães.

Claramente, ele tem uma vida interior mais rica do que a vista alcança, mas isso só começa a ficar mais claro quando ele recebe a visita inesperada de uma sobrinha, Niko (Arisa Nakano). Mas Wenders, que corroteirizou a história com o roteirista e diretor Takuma Takasaki, não dará, no entanto, o mapa completo desta vida. Teremos que preencher por nós mesmos as lacunas de quem é Hirayama, interpretado com sutil intensidade por este ator veterano de 67 anos, visto em filmes de Hirokazu Kore-eda e Shohei Imamura, e que é certamente um dos mais fortes candidatos ao prêmio de melhor ator.

Pensando na seleção deste ano, Perfect Days conecta-se por exemplo com Il Sol dell’Avvenire, de Nanni Moretti, num final que remete à busca de uma nova luz e da esperança, num mundo turbulento, pós-pandemia e abalado por guerras como a da Ucrânia. E Wenders, vencedor da Palma de Ouro em 1984 com Paris, Texas, e melhor diretor em 1987 com Asas do Desejo, além de outras indicações e prêmios por aqui, é sempre um concorrente respeitável.


Melodrama repetido
Numa chave inteiramente diferente, e no pior sentido, o concorrente francês L'Été Dernier, de Catherine Breillat, suscitou mais perguntas sobre a razão do filme ter sido feito e de participar da competição do que outra coisa. Trata-se de um remake do drama dinamarquês Rainha de Copas, da diretora May El-Touy. A excelente atriz francesa Léa Drucker repete o papel vivido naquele filme por Trine Dhyrholm, da advogada Anne.

Especializada em direito de família, Anne envolve-se com seu enteado adolescente, Théo (Samuel Kircher), uma paixão carnal cujas cenas de sexo a diretora mostra generosamente - deixando claro que é esta mesmo sua intenção, produzir o ‘petit scandal’ do festival.

Se não segue passo a passo o roteiro do filme dinamarquês, adaptado por ela, Breillat também não aponta novos caminhos neste melodrama pesado e, por vezes, risível. Participar da competição parece apenas comprovar um desejo de cumprir a cota de filmes franceses que ganham no festival uma plataforma de lançamento futuro nos cinemas.