Brasil brilha com concorrentes na Semana da Crítica e Un Certain Regard
- Por Neusa Barbosa, de Cannes
- 23/05/2023
- Tempo de leitura 4 minutos

Cannes -
A terça-feira (23) reservou boas notícias para o cinema brasileiro, com a passagem de dois filmes com acolhida calorosa em seções competitivas.
Na seção Un Certain Regard, a dupla João Salaviza e Renée Nader Medora apresentou seu forte e poético A Flor do Buriti, em que mais uma vez os diretores retratam o universo do povo Krahô - que eles haviam já abordado em filme anterior, premiado há 4 anos nesta mesma seção em Cannes, Chuva é Cantoria na Terra dos Mortos.
Com o total engajamento dos Krahô, os diretores retratam um cotidiano que incorpora as tarefas cotidianas, os rituais e o convívio com a natureza num céu coalhado de estrelas - no Cerrado do Centro-Oeste - e também a reconstituição de um massacre ocorrido há décadas, mas cujas marcas ainda se fazem sentir. Esse relacionamento conflituoso com os “cupe” (o homem branco), particularmente com um certo agronegócio predatório, que invade terras indígenas com seu gado e pistoleiros, injeta uma dor, mas também uma energia de mobilização.Prova disso é uma grande movimentação de diversos povos indígenas, acampados em Brasília e participando de manifestações, ainda durante o governo Bolsonaro, em que a futura ministra Sonia Guajajara tinha uma participação destacada.
Ao final das duas horas de projeção, além dos aplausos, a sala Debussy testemunhou os indígenas Krahô presentes entoando seus cantos tradicionais e tocando maracas, elevando bastante o nível da emoção do público.

Periferia ativa
Na seção Semana da Crítica, foi a vez de Levante, em que a diretora Lillah Halla deu voz à periferia paulistana e a questões feministas, compondo a história de jovens jogadoras de vôlei do Capão, numa história que entrelaça diversidade, intolerância, fanatismo religioso e aborto.
A protagonista é Sofia (Ayomi Domenica Dias, filha de Mano Brown), a revelação do time dirigido por uma técnica aguerrida (Grace Passô), cotada para ganhar uma bolsa no Chile. Bem nesse momento, ela se descobre grávida e fica no centro de uma situação dramática, que envolve seu pai (Rômulo Braga) e também fanáticos religiosos anti-aborto. Tudo isso culmina em confltos que dialogam diretamente com a contemporaneidade brasileira, mas não numa pegada derrotista - bem ao contrário, as jovens de Levante mostram que estão bem dispostas a fazer jus ao título do filme, que tem na música uma de suas mais eficientes ferramentas.

Competição
Voltando à disputa pela Palma de Ouro, foi um delicioso alívio a passagem de Kuolleet Lehdet (Les Feuilles Mortes), do finlandês Aki Kaurismaki. Firme no seu estilo minimalista, Kaurismaki desenvolve um romance difícil entre dois trabalhadores melancólicos (Alma Pöysti e Jussi Vatanen). Perdidos em Helsinque, entre as incertezas de seus empregos e do alcoolismo dele, os dois são uma espécie de retrato de uma contemporaneidade que não dá espaço para expressão de sentimentos nem utopias. Ambos parecem mover-se na vida assim como os zumbis de um filme que vão assistir no cinema um dia. As referências cinematográficas, aliás, são muitas, desde as menções explícitas a Bresson e Godard - justamente numa comparação irônica com o filme de zumbis -, quanto nos muitos cartazes mostrados até mesmo num bar. Até o cachorrinho que a moça adota se chama Chaplin - e o toque de doçura final da história pode ser mesmo chamado de uma homenagem ao genial vagabundo.
Se a concisão, o humor e a delicadeza da obra de Kaurismaki foram inspiradores, o concorrente austríaco Club Zero, de Jessica Hausner, impactou no sentido contrário. A diretora participou de Cannes há quatro anos com Little Joe (que conquistou prêmio de melhor atriz para Emily Beecham).
Adepta de universos bizarros, ela cria um clima de estranhamento num internato juvenil de alto padrão com a chegada de uma nova professora, a srta. Novak (Mia Wasikovska), que vem implantar um programa de Alimentação Consciente. A partir do combate a maus hábitos alimentares e ao consumismo, a professora, no entanto, guia seus alunos adolescentes cada vez mais rumo ao jejum - porque supostamente seria possível sobreviver sem o consumo de qualquer alimento.
Evidentemente, trata-se de uma sátira sinistra, que injeta algumas críticas até muito pertinentes sobre o tema da alimentação e também sobre como pais de alto padrão econômico tentam entregar seus filhos a um sistema educacional que os prive da responsabilidade por eles. Mas, num verdadeiro samba de uma nota só, a diretora/roteirista não sai do seu pressuposto inicial, não avança para nenhum outro lugar do que o estabelecimento deste relacionamento vicioso entre a professora e seus alunos, diante de tentativas fracassadas dos pais de, finalmente, interferir no processo.
Relacionadas
"Levante" ganha prêmio da Fipresci
- 27/05/2023
Cannes à espera da Palma de Ouro 2023
- 27/05/2023
O impacto renovado de Martin Scorsese
- 21/05/2023
Um dia de jornadas exaustivas em Cannes
- 19/05/2023
